Bodhisattva in metro :)
Tal como quando faço Bodyboard só sei fazer esquerdas, pergunto a mim próprio qual será a característica ergonómica que me faz beijar melhor uma mulher da direita para a esquerda do que da esquerda para a direita.
O facto de a testosterona nos ter empurrado para um concurso de braço-de-ferro (??) em cima de um caixote de lixo à porta de um restaurante de Lisboa depois de um jantar na última sexta-feira à noite, juntamente com uma conversa de domingo em que uma rapariga afirmava, para meu espanto, curtir os filmes dele, deve ter-me feito irromper na ideia, mais uma pérola do grande Stallone, uma grande malha:
O Lutador (Over the Top – 1987, 93 m)
SINOPSE
Uns lutam por dinheiro,
Outros pela fama
Ele luta para recuperar o amor do seu filho.
John Grizzly: When I get to the table, that person, I don't care who they are, they're my mortal enemy. I hate them.
Harry Bosco: My whole body is an engine. This is a fireplug
Bob 'Bull' Hurley: Being number one is everything. There is no second place. Second sucks.
Bob 'Bull' Hurley: I drive truck, break arms, and arm wrestle. It's what I love to do, it's what I do best.
Lincoln Hawk: Tell you the truth, the truck is, uh, you know, the most important thing for me. I... I don't really... it doesn't matter if I, uh, become the champion or anything. That's, that's not the most important... I... I need this truck.
Lincoln Hawk: The world meets nobody halfway. When you want something, you gotta take it.
Palavras para quê?: Um senhor.
“Amam-se, disso tenho certeza”, diz Avellaneda, “mas não sei se essa é a forma de amar que me agrada”. Sacode a cabeça para acompanhar a dúvida, depois anima-se a acrescentar: “Relacionadas com os sentimentos há uma série de zonas vizinhas, afins, fáceis de confundir. O amor, a confiança, a piedade, a camaradagem, a ternura; eu nunca sei em qual dessas zonas têm lugar as relações entre o meu pai e minha mãe. É algo muito difícil de definir e não creio que eles próprios o tenham definido. Já aflorei o tema com a minha mãe em algumas ocasiões. Ela acha que na sua relação com o meu pai há demasiada serenidade, demasiado equilíbrio para que exista efectivamente amor. Essa serenidade e esse equilíbrio, aos quais também se pode chamar falta de paixão, talvez houvessem sido insuportáveis se eles tivessem tido alguma recriminação a fazer um ao outro. Mas não existem recriminações nem motivos para recriminações. Sabem que são bons, honestos, generosos. Sabem também que tudo isso, mesmo sendo tão magnífico como é, não significa ainda amor, nem significa que se queimem nesse fogo. Não se queimam, e aquilo que os une dura ainda mais”. “E contigo e comigo, o que é que se passa? Estamos a queimar-nos?”, perguntei, mas nesse preciso momento estava distraída e o seu olhar parecia o de alguém surpreendido pelo mundo, pelo mero facto de se encontrar nele.
Mario Benetti, A Trégua, Cavalo de Ferro
Se se tivesse tornado comerciante, e continuador portanto do empório dos pais dele, pensava eu, teria sido feliz, feliz à sua maneira, mas faltava-lhe igualmente a coragem para tomar uma decisão dessas, essa pequena meia-volta de que eu muitas vezes falei na sua frente, e que ele nunca se decidiu a dar. Queria ser artista, ser um artista da existência não lhe bastava, conquanto este conceito congregue em si tudo o que nos pode fazer felizes se formos suficientemente perspicazes para o ver, pensava eu. E por fim enamorou-se do seu fracasso, se é que não ficou mesmo loucamente apaixonado por ele, pensava eu, aferrou-se a esse seu fracasso até ao fim da vida. Poderia mesmo dizer que ele foi infeliz até na sua infelicidade, mas teria sido ainda mais infeliz se, da noite para o dia, tivesse ficado privado da sua infelicidade, se, de um momento para o outro, lha tivessem tirado, e este facto é por sua vez a prova de que ele, no fundo, não era de forma alguma infeliz, mais sim feliz, ainda que o fosse graças à sua infelicidade e exactamente por causa dela, pensava eu. Muitos há que são fundamentalmente felizes porque estão afundados na desgraça, pensava eu, e disse para mim mesmo que o Wertheimer talvez tivesse sido feliz de facto por ter tido sempre plena consciência da sua infelicidade, por se ter podido regozijar com a sua desgraça. Pareceu-me de súbito que nada havia de absurdo em pensar que ele, por qualquer razão que eu desconhecia, tivera medo de perder a sua infelicidade, e por isso partira para Chur e para Zizers e se suicidara. Talvez tenhamos de partir do princípio de que o chamado homem infeliz não existe, pensava eu, porque, na maior parte dos casos, somos nós quem o faz infeliz ao privá-lo da sua infelicidade. O Wertheimer teve medo de perder a sua infelicidade, e foi por essa única razão, e mais nenhuma, que se matou, pensava eu, subtraiu-se ao mundo com um requintado golpe de mestre, e cumpriu, por assim dizer, uma promessa em que já ninguém acreditava, pensava eu, subtraiu-se àquele mesmo mundo que, de facto, queria apenas e sempre fazê-lo feliz (...)
Thomas Bernhard, O Náufrago, Relógio D’ Água
Está aqui, ao meu lado, o corpo dela. Lá fora está frio, mas aqui a temperatura é agradável, até está calor. O corpo dela está quase a descoberto, a manta e o lençol deslizaram para um dos lados. Quis comparar este corpo com as minhas memórias do corpo de Isabel. Evidentemente, eram outros tempos. Isabel não era magra, os seus seios eram volumosos e, por isso, descaíam um pouco. O seu umbigo era profundo, grande, escuro, de margens grossas. As suas ancas eram a parte melhor, aquilo que mais me atraía; tenho uma memória táctil das suas ancas. Os seus ombros eram cheios, de um branco rosáceo. As suas pernas estavam ameaçadas por um futuro de varizes, mas ainda eram bonitas, bem torneadas. Este corpo que está ao meu lado não tem absolutamente nenhum traço em comum com aquele. A Avellaneda é magra, o seu busto inspira-me um bocadinho de piedade, os seus ombros estão cheios de sardas, o seu umbigo é infantil e pequeno, as suas ancas também são o melhor (ou será que as ancas me comovem sempre?), as suas pernas são magras mas bem feitinhas. No entanto, aquele corpo atraiu-me e este atrai-me. Isabel tinha, na sua nudez, uma força inspiradora, eu contemplava-a e imediatamente todo o meu ser era sexo, não era possível pensar noutra coisa. A Avellaneda tem na sua nudez uma uma modéstia sincera, simpática e inerme, um desamparo que é comovente. Atrai-me profundamente, mas aqui o sexo é só um ramo da sugestão, do chamamento. A nudez de Isabel era uma nudez total, mais pura talvez. O corpo de Avellaneda é uma nudez com atitude. Para gostar de Isabel bastava sentir-me atraído pelo seu corpo. Para gostar de Avellaneda é preciso gostar da nudez e da atitude, já que esta é pelo menos metade da sua atracção. Ter Isabel entre os braços significava abraçar um corpo sensível a todas as reacções físicas e também capaz de todos os estímulos lícitos. Ter nos meus braços a magreza concreta da Avellaneda significa abraçar também o seu sorriso, o seu olhar, a sua forma de falar, o repertório da sua ternura, a sua reticência a entregar-se completamente e as desculpas pela sua reticência.
Mario Benedetti, A Trégua, Cavalo de Ferro
(...) É. Parece que estou mudando de modo de escrever. Mas acontece que só escrevo o que quero, não sou um professional - e preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura. Estarei lidando com factos como se fossem as irremediáveis pedras de que falei. Embora queira que para me animar sinos badalem quanto adivinho a realidade. E que anjos esvoacem em vespas transparentes em torno de minha cabeça quente porque esta quer enfim se transformar em objecto-coisa, é mais fácil.
Clarisse Lispector, A Hora da Estrela, e mais uma vez os livros da Relógio d'Água já se desfizeram na página 30.
O título em destaque na imprensa é a descoberta pelo SIS dos planos do Hamas para dinamitar as duas pontes sobre o Tejo.

Ó Avô, largue lá o Photoshop
Em Janeiro, Sá Fernandes manda demolir o túnel do Marquês.
Em Fevereiro, António Costa lança o concurso público para a construção de um novo túnel, no mesmo local, aproveitando sinergias.
Em Março, Carmona avança com as primeiras escavações.
My genius, if I can call it that, is to combine a whole load of averageness into a compact frame. I’d say that there were millions like me, but there aren’t, really: lots of blokes have impeccable music taste but don’t read, lots os blokes read but are really fat, lots of blokes are sympathetic to feminism but have stupid beards, lots of blokes have a Woody Allen sense of humour but look like Woody Allen. Lots of blokes drink too much, lots of blokes behave stupidly when they drive cars, lots of blokes get into fights, or show of about money, or take drugs. I don’t do any of these things, really; if I do OK with women it’s not because of the virtues I have, but because of the shadows I don’t have.
Nick Hornby, High Fidelity
Euclides mede um metro e treze, o tamanho, pouco mais ou menos, de uma criança de quatro anos.
“Este homem”, costumava dizer Cunha de Menezes, “é um gigante”.
Não estava a brincar. Sempre que dizia aquilo a voz dele brilhava de orgulho. Esta tarde, ao ver o jornalista a passear a sua bem-aventurança pela feira, Francisco Palmares compreende o que o indiano queria dizer: o anão caminha com a insolente segurança de um colosso. As pessoas observam-no com estranheza. Algumas murmuram entre si, apontam-no com o olhar depois que ele passa, mas não se riem. Pouca gente se atreve a rir de Euclides Matoso da Câmara.
José Eduardo Agualusa, o Ano em que Zumbi tomou o rio, Dom Quixote
A primeira reacção de um animal frustrado é geralmente tentar pôr um pouco mais de força na tentativa de alcançar os seus objectivos. Por exemplo, um galinha com fome (Gallus domesticus), impedida de obter alimentos por uma vedação de arame, irá tentar passar através dessa vedação com esforços cada vez mais frenéticos. Pouco a pouco, contudo, este comportamento será substituído por outro, aparentemente sem objectivo. Os pombos (Columba livia), por exemplo, dão frequentes bicadas no chão quando não podem alcançar a comida desejada, mesmo que no chão não haja nenhum objecto comestível. Vão pôr-se, não apenas a dar estas bicadas indiscriminadas como também a alisar as penas. A um tal comportamento disparatado, frequente em situações que envolvem uma frustração ou um conflito, chama-se actividade de substituição. No princípio de 1986, pouco depois de ter chegado aos trinta anos de idade, Bruno começou a escrever.
As Partículas Elementares, Michel Houellebecq
João
É incrível o poder da palavra.
Há tempos falava com uma rapariga que me atraía de sobremaneira, quando ela me diz, a propósito de um convite que eu lhe teria feito:
“Não posso, faleceu um familiar meu”.
Nunca mais lhe liguei.
João
A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão,
e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e quanto mais lambente, mais activa,
atinge o céu do céu,
entre gemidos, entre gritos,
balidos e rugidos de leões na floresta enfurecidos.
Carlos Drumond de Andrade
Protótipo
He is silent. Then: “Do you know why my daughter sent me to you?”
“She told me you were in trouble.”
“Not just in trouble. In what I suppose one could call disgrace.”
Disgrace, J.M. Coetzee
Tinhas um sofá-cama coçado, do Exército de Salvação, onde dormíamos antes de comprarmos a meias O Colchão. Ofereceste-me uma bebida, que me estendeste ao mesmo tempo que me observavas com uma expressão incrível de espanto e curiosidade, como se fosse uma espécie de milagre eu ter mãos e poder segurar o copo, ou ter boca e poder beber por ele, ou até o facto de me ter materializado, sequer, no teu quarto um dia depois de nos termos conhecido no metro. Tu falavas, fazias perguntas, por vezes respondias a perguntas, com um ar perfeitamente sério e, ao mesmo tempo, hilariante, e eu fazia um grande esforço para falar também; conversar não era tão fácil para mim como para ti. Por isso ali estava, a devolver os teus olhares, a absorver e a compreender muito mais do que esperava compreender. Mas não conseguia encontrar palavras que preenchessem o espaço criado pelo facto de tu pareceres atraído por mim e de eu me sentir atraída por ti. Não parava de pensar: “Não estou preparada. Acabei de chegar a esta cidade. Ainda não. Mas estarei, com um pouco mais de tempo, com um pouco mais de conversa, se for capaz de pensar no que desejo fazer, estarei. (“Preparada” para quê, não sei. Não apenas para fazer amor. Preparada para ser.) Mas depois tu “mergulhaste”, quase do meio do quarto, para onde eu estava, e fiquei aturdida, mas encantada. Era e não era cedo demais.”
A Mancha Humana, Philip Roth
um livro sobre a amizade, e já agora, sobre a traição:
As velas ardem até ao fim, de Sándor Márai (Publicações Dom Quixote).
Protótipo
Hoje, numa aula de natação, depois de tentar ingloriamente nadar duas piscinas em estilo crawl com os braços e bruços com as pernas, diz-me o professor:
Isto é o que se chama destreza complexa
Protótipo
Um homem que se encosta às circunstâncias pode cair, dizia por vezes Klober, em conversa.
Gonçalo M. Tavares, A máquina de Joseph Walser
Protótipo
Para que não se pense, a partir da leitura do meu último post, que não gosto de cães, eu que sempre vivi com eles, e em especial com o cão da minha eleição, o Labrador, aqui fica, pelas palavras do poeta, a minha homenagem ao bicho, a um bicho com personalidade, um bicho de que gosto, e que é, no fundo, um cão como nós:
"Não era um cão como os outros. Era um cão rebelde, caprichoso, desobediente, mas um de nós, o nosso cão, um cão que não queria ser cão e era um cão como nós".
Manuel Alegre
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Na época do materialismo, eu estou mais à frente. Amo "a coisa". O meu carro, por exemplo: o truque da caixa, o climatronic, o banco moldado, o jeitinho para abrir o suporte dos copos, a potência da 3ª bem puxada - tal como cada um de nós, um ser único e irrepetível. E ainda me falam do cão. O carro leva-me para onde quero, tem alto design, faz duas horas de Lisboa ao Porto em alto conforto, protege-me do vento, da chuva e do frio, refresca-me, aquece-me, dá-me música - dá-me prazer -, e não me caga no tapete da sala.
Fez hoje 100.000 Km. Apetecia-me fazer-lhe uma festa.
Protótipo
Maria Filomena Mónica, sob o título "as mulheres Portuguesas são parvas", escreve:
"(...) Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia. Nem a mais super das supermulheres pode levar as crianças à escola, atender os clientes no escritório, ir à hora do almoço ao cabeleireiro, voltar ao escritório onde a espera sempre um problema urgente, fazer compras num destes modernos supermercados decorados a néon, ler umas páginas de Kant antes de mudar as fraldas do pimpolho, dar um retoque na maquilhagem, telefonar a três "babysitters" antes de arranjar uma, ir ao restaurante jantar com os amigos do marido, discutir a última crise governamental e satisfazer as fantasias sexuais democraticamente difundidas pelos canais de televisão. Estou a falar, note-se, de mulheres socialmente privilegiadas. A vida das pobres é um inferno sem as consolações de que as suas irmãs de sexo, apesar de tudo, usufruem."
Protótipo
Um homem destes, encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna líbica a antílopa descuidosa.
Camilo Castelo Branco, A Queda de um anjo
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a ideia também me irrita, mas este será dos que vale a pena.
"Era uma pequena lavandaria a vapor, perfeitamente organizada, onde as máqunas mais modernas faziam tudo o que era possível executar mecanicamente. (...) Terça-feira também trabalharam como loucos. A velocidade com que Joe trabalhava causava admiração a Martin. Valia por uma dúzia. Tinha os movimentos mecanizados e nem por breves momentos, ao longo do dia, deixava de tentar ganhar tempo. Concentrava-se nas tarefas, não perdia um minuto, chamando a atenção de Martin para o facto de que aquilo que fazia em cinco tempos poderia ser feito em três, ou em dois quando o fazia em três.
- Eliminação de movimentos supérflulos - dizia Martin enquanto o observava e copiava."
Jack London, Martin Eden
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Num filme qualquer que nem vale a pena mencionar, John Travolta, ao vê-la ir, sai-se com esta:
I hate to see you leave, but I love to watch you go
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actor, argumentista, realizador. Tudo o que vi dele até agora é bom; muito bom.
Exemplo: Sidewalks of New York
Protótipo
Deputada Buitenweg (Verde, Holandesa): "Senhor Buttiglione: Algumas das suas opiniões estão em directa contradição com a lei europeia. Por exemplo: a discriminação com base na orientação sexual é interdita e o Senhor disse que a homossexualidade é um pecado e é sinal de desordem moral. Gostaria de saber directamente de si, agora, como é que nós poderemos esperar que o Senhor combata por esse direito e se poderia dar-nos um exemplo de como espera alcançar o seu objectivo."
Resposta de Buttiglione:"Posso recordar um filósofo, já antigo, mas talvez não completamente esquecido, de Könisberg - um tal Emmanuel Kant -, que fez uma clara distinção entre moralidade e direito. Muitas coisas, que podem ser consideradas imorais, não devem ser proibidas. Quando fazemos política, não renunciamos ao direito de ter convicções e eu posso pensar que a homossexualidade é um pecado e isso não ter efeito na política, o que só sucederia se eu dissesse que a homossexualidade é um crime. Da mesma maneira, a Senhora é livre de pensar que eu sou um pecador em muitas coisas da vida, e isso não tem nenhum efeito nas nossas relações como cidadãos."Direi por isso que considero uma abordagem inadequada do problema pretender que toda a gente concorde em questões de moralidade."Nós podemos construir uma comunidade de cidadãos mesmo que em algumas questões de moralidade tenhamos opiniões diferentes. A questão é, isso sim, da não discriminação. O Estado não tem o direito de meter o nariz nessas questões de moralidade e ninguém pode ser discriminado com base na sua orientação sexual ou qualquer orientação de género. É isto o que está na Carta dos Direitos Fundamentais, na Constituição, e eu tenho defendido esta Constituição."
Protótipo
Hoje, ao ler no Público que está a aumentar o número de casamentos em que a mulher tem níveis de escolaridade mais elevado que os do marido – e já são 32%, sendo que 55% tem escolaridade idêntica (guys, do the math...) -, veio-me logo à cabeça o grande Jack Nicholson, no A Few Good Men:
Col. Jessep: If you haven't gotten a blowjob from a superior officer, you're just letting an opportunity pass you by.
Protótipo
Pacheco Pereira, há uns dias (não faço link porque o homem não tem aquivos) dizia, depois de recomendar vários autores e livros, qualquer coisa como isto:
não percebo como há pessoas que se dão ao luxo de se sentirem aborrecidas.
Protótipo
em Português, como nunca o lemos antes.
Odisseia, tradução de Frederido Lourenço, Cotovia
Proptótipo
Ando às voltas com aquilo que devo ser, com o que quero ser; e sem pensar, ao pensar, sei que pelo menos quero - e que será.
Protótipo
a António Lobo Antunes, hoje, no Público. Para aguçar o apetite:
"P - Sabemos pelas entrevistas que dá que vai pouco ao teatro, pouco ao cinema, não gosta de ir a bares...
R - ...não bebo...
P - ...Mas está atento aquilo que se passa, vê televisão?
R - Pouco. Vejo teletexto. Gosto de ler alguns jornalistas. Às vezes pergunto-me que liberdade têm os jornalistas. Se esta discussão que há agora [sobre pressões dos poderes político e económico] não houve desde sempre. A sensação que tenho do que conheço de si, por exemplo, é que deve ter tido graves problemas ao longo da sua vida.
(....)
P - Se pudesse escolher os convidados desta noite da homenagem, quem gostava de ver ?
R - Charlie Parker. Alguns músicos de jazz. A gente aprende a frasear com eles. John Lester. Johnny Rodgers. Thelonious Monk. Gostava de ouvi-los a tocar. Não sei se gostaria de falar com eles. Eu tenho muito medo, sabe. A gente mitifica as pessoas. Lembro-me de ter ido ter com um escritor que me convidou para almoçar. Eu disse "Bom dia", ele disse "Bom dia", e fiquei logo desiludido. A gente espera que um escritor diga sempre coisas inteligentes e é muito raro aparecer um Oscar Wilde; um Churchill a quem perguntam aos 80 anos a que é que atribui o segredo da longevidade e ele - "A ginástica, que nunca pratiquei"; um De Gaulle que confrontado com as reivindicações dos operários de uma fábrica de chocolates que visitava diz - "Ora deixa tomar nota aqui na minha tablette"...
(...)
P - Então pronto. Peço-lhe desculpa destas três horas que lhe retirei ao seu livro. Hoje já tinha escrito quanto?
R - Quatro ou cinco horas.
P - Em páginas isso traduz-se em quanto? Aquelas duas que vejo ali?
R - Hoje escrevi muito pouco. [Pega numa das folhas, mede-a]. Um dedo. Em quatro horas escrevi um dedo. (...)"
Protótipo
As cabalas existem, independentemente da vontade subjectiva de as constituir.
Rui Gomes da Silva, em resposta a um membro da Alta-Autoridade da Comunicação Social
Protótipo
(...) Hieros Gamos had nothing to do with eroticism. It was a spiritual act. Historically, intercourse was the act through male and female experienced God. The ancients belived that the male was spiritually incomplete until he had carnal knowledge of the sacred feminine. Physical union with the female became the sole means through which man could become spiritually complete and ultimately achieve gnosis – knowledge of the divine. Since the days of Isis, sex rites had been considered man’s only bridge from earth to heaven. By communing with women, man could achieve a climactic instant when his mind went totally blank and he could see God”. (…)
Physiologically speaking, the male climax "was" (aspas minhas) acompanied by a split second entierly devoid of thought. A brief mental vacuum. A moment of clarity during which God could be glimpsed. Meditation gurus achieved similar states of thoughtlessness without sex and often discribed Nirvana as a never-ending spiritual orgasm.
The Da Vinci Code, Dan Brown
Protótipo
Há uns anos via um programa na SIC em que se perguntava, a gajos com nível – grandes cientistas, artistas, entre outros –, esta coisa simples e simultaneamente assombrosa: o que é que há de “Belo” na vida que o conforte pelo facto de não haver vida para além da morte?
E agora, vou pá Tanzânia. See you soon, in another cartoon.
Protótipo
(...)
What if the fish came from the sea,
What if my lover made me feel free,
What if my intake caused revelation,
What if the point was reincarnation;
What if my shoes don't match my jacket,
If it's not working why don't you smack it;
What if your mamma said you were fat,
If you are lost find where you're at,
Where is the what if the what is in why,
Where is the what if the what is in why,
Where is the what if the what is in why,
How did the loser get to be rich,
What is a saleman with nothing to pitch,
When did the fool het to be king,
Why did you leave when they asked you to sing,
Why loose belief if you got a dream,
What is a train that ran out of steam,
what is a spy with no-one to spy,
On who do you sleep with nothing to lie on,
What if the fruit don't fall from the tree,
What if these questions just won't let you be,
Why waste your time looking for proof,
What if the answer is never the truth .
MOLOKO, Where Is The What If The What Is In Why?
Protótipo
Topas-la, ela topa-te a ti (durante mais "um tempo" que seria normal, para a uma curiosidade normal - achas tu). Pensas que te deseja, e avanças, sem medo. Metes conversa; danças, ululante, ajudado pela música e pela agitação pueril de um ritual típico de acasalamento. Como sabes que o momento é tudo, só tens tempo para dizer duas graças e mandar dois micanços e, apenas um instante depois pedes-lhe o número de telefone. (Levas a boca) Ela pega na amiga, e baza. E é este o meu ponto - devia haver algo, suficientemente arrojado, "antes" do número de telefone. Inventemos esse intermédio.
Protótipo
" ... as we know, there are known knowns; there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say, we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns, the ones we don't know we don't know." Donald Rumsfelt (Dept. of Defence News Briefing, Feb. 12, 2002)
Não deixa de ser irónico e perverso que alguém de tal forma versado nas matérias da epistemologia e da gnosiologia acabe por meter o mundo em guerra por causa de umas armas que dizia existirem mas que, afinal, não sabia se existiam ou sabia não existirem. Parece que o homem já nos estava a preparar para o embuste que conhecemos. É caso para dizer que, no caso do Donald e das ADM, não estaremos bem perante um unknown unknown (onde se elabora em erro), mas perante um outro tipo de known knowns; that is to say, things we say we know, knowing we really don't know, hence lying our asses off for the sake of oil and some other tricky shit.
Donald: is your mother proud of you?
Protótipo
(a propósito da sua entrada para o teatro como actor)
Há quem pergunte se não tenho medo do ridículo. Absolutamente. E digo mais: só os imbecis têm medo do ridículo. Considero um soturno pobre-diabo o sujeito que não consegue ser ridículo de vez em quando.
Nelson Rodrigues, Remador de Ben-Hur
O verdadeiro defeito do casamento é pôr termo ao egoísmo. E as pessoas que não são egoístas são incolores. Carecem de individualidade. Todavia, certos temperamentos há que o casamento torna mais complexos. Conservam o seu egoísmo e acrecentam-lhe muitos outros egos. São forçados a terem mais que uma vida. Tornam-se mais altamente organizados, e ser altamente organizado, é, imagino eu, o objectivo da existência humana.
Oscar Wilde, Retrato de Dorian Gray
Protótipo
Dias da Cunha, no seu habitual estilo artístico, disse que o Sporting jogou o melhor futebol do campeonato.
De que Sporting e campeonato ele estava a falar?
Do Sporting do campeonato português de 11 só ficou o prazer de dar três a um ao Benfica na Luz no primeiro jogo "a sério" do novo galinheiro. Fora isso a época foi pior que má, a equipa foi-se abaixo em todos os jogos importantes e, embora o DC não tenha incluído na infeliz expressão as taças de Portugal e UEFA, o certo é que fomos eliminados em casa pelo Setúbal e pelo Gengblzdszldl. Talvez o DC proponha festejar isto.
Ou então Dias da Cunha estava a falar do sporting do campeonato de futebol de salão, que foi campeão.
Subia hoje a Fontes Pereira de Melo, por volta das 9.30, quando um carro em sentido contrário põe o pisca, buzina e faz inversão de marcha a meio da avenida.
Palavras para quê?
Steve
Após ter caído num estado depressivo, Elsa Raposo tentou o suicídio através da ingestão de uma forte dose de comprimaridos.
Orlando Paiva Couceiro
Uma jovem moldava foi ontem violada na estação do Alto dos Moínhos. Pela descrição do suspeito, tudo leva a crer tratar-se de um metrossexual.
Orlando Paiva Couceiro
- Meu caro, não há mulher nenhuma que seja um génio. As mulheres são um sexo decorativo. Nunca têm nada que dizer, mas é um encanto ouvi-las. As mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito, como os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral.
Oscar Wilde
Protótipo
Nestes 15 anos de intensa e diversificada actividade noctívaga, nunca dera por mim no Hot Clube (sim, freio nos 'comments' que se escreve com "e" no fim). Por este ou aquele motivo, mas principalmente pelo temor claustrofóbico da catacumba, Meca do jazz, a minha ausência fizera-se notar, sem que os metais, contudo, se tivessem deixado de ouvir.
Até ontem.
Ia preparado para uma sessão de improvisação, mas saiu-me uma big band, o que, para efeitos deste post, é indiferente.
Transposta a entrada, esbarro na "imensa moldura humana" (obrigado, comentadores da bola), que se estende pelas escadas, serpenteia as colunas que sustentam o tecto baixo e, por fim, se esborracha no bar.
Sendo um ausländer da cave, nem por isso me intimido e, fazendo uso da genética e estética de parelha urbana trendy, por entre pisadelas e sorrisos amarelo-torrados-desculpativos, conquisto uma importante área do bar a qual não mais viria a abandonar, estratégicamente junto ao bico de imperial, ainda que confrontando com uma das ditas colunas, que me tolhia parcialmente a visão do palco.
A big band tocava. Como não os conseguia ver a todos - sendo certo que no palco de 10m2 se acumulavam uns 10 músicos, pianista e piano incluídos (!) - fui perdendo o olhar pela fauna jazzistica. Como era 4.ª feira (no roteiro, "dia de Hot Clube"), a mescla era a tónica. Assim como a água...é verdade, aquela malta bebe toda água tónica, straight ou com gin.
E soltam gritinhos durante a interpretação, ronronam (literalmente!...) - eu que achava que nisto das faunas, só os rockabillies é que idolatravam o gato - e, em geral, acham a música "sensual".
De súbito, do meio da mob, 6 Lorenins depois, eis que surge...Lena d'Água! ela mesma!, trajando camisola de lã anos 80, daquelas com filas de cãezinhos e gatinhos (lá está o raio do bicho outra vez!) cujas formas fazem todas ângulos de 90º. Como o dito ansiolítico lhe devia estar a bater bem, dei com ela várias vezes de cotovelos apoiados sobre o balcão do bar, enquanto segurava a cabeça sobre as palmas das mãos, de olhar perdido mas sempre sorridente. Afinal, era a mesma Lena que na Casa-Mais-Vigiada estendia roupa às 5 da manhã.
As imperiais e as tónicas não paravam; no palco a big band continuava a debitar sopros & metais e já nem se conseguia ver a porta - "Se há fogo, ficamos cá todos", não parava de pensar. Paranóico, aproveitei a deixa do intervalo para ir para a rua apanhar ar e não mais voltar. Até à próxima.
Conclusão: o Hot Clube é a Meca do jazz em Lisboa, tem mística por ser minúsculo, mas já pedia uma mudança de instalações. A não ser que queiram continuar a ser uma quase sociedade secreta, esotérica, onde os músicos, por "carolice", vão continuar a morrer à fome. E já agora, aceitarem pagamento por multibanco.
Orlando Paiva Couceiro
Passado o entusiasmo da entrada na garagem, e não obstante a dor de cabeça que acometeu a menina Rocheta ao deitar - vá-se lá saber porquê - Carlos regressa às rotinas quotidianas. À revelia da extensão da medida de coacção ontem decretada, ausentou-se por uns minutos da habitação, tendo sido visto na pastelaria do bairro, onde foi parco em palavras:
- Ora viva, Sr. Cruz, é o costume, sai garoto?
- Não, quero antes um bico, cheio. Coisas do EPL...
Orlando Paiva Couceiro
Mãezinhas, fechem os vossos filhos em casa!, o Tribunal da Relação ordenou a soltura do Carlos Cruz com obrigação de permanência na habitação.
Protótipo
Vivemos no far west. Embora sem cowboys e duelos, e já não se morra com bala, continuamos a matar e a cair. A sexta feira à noite, então, é guerra. O Vietname da sedução.
Corpos com poeira, com dores de amor ou de desespero, perdulários, que desconseguem aquilo a que julgam ter direito. Doutras vezes somos nós os Billy da Kid que sacamos da arma e acabamos com as aspirações daquele amor. O problema é que, como dizia Gainsbourg - homem feio como tudo e que à pala de um grande nível teve no currículo a Catherine Deneuve e a Jane Birkin -, numa relação há normalmente um que sofre e outro que se chateia. É fodido.
Mesmo assim, vale sempre a pena desde que ela tenha nível e se um gajo mantiver a dignidade. Cá para mim, e salvo quando somos nós a fazer merda, correr atrás de mulher é como correr atrás de um autocarro – perde-se sempre o autocarro. De resto, é saltar de cabeça e ir à guerra. Porque uma mulher é uma cena bacana, boa, macia, linda. Lima-nos as arestas, educa-nos, suga-nos a testosterona, dá-nos o néctar dos Deuses e faz-nos sentir inteiros. Vivos. Como dizia o mestre
Erros meus, má fortuna, amor
em minha perdição se conjuram
erros e má fortuna sobejam
que para mim bastava amor somente
Protótipo
Em regra, não acho piada nenhuma à coisa, e só me levanto quando as pilhas já não alimentam o comando à distância.
Ontem foi (parcialmente) diferente. Apanhei a parte final do stand-up do Ricardo Araújo Pereira e o brilhante enxovalho que deu ao livro da Alexandra Solnado - "Este Cristo que vos fala" e à própria Alexandra. Foi memorável! Até fiquei com vontade de comprar o livro só para ler o manancial de baboseiras...
A seguir levantei-me...e mudei de canal.
Orlando Paiva Couceiro
Diálogo no Casal Ventoso:
- Tens cenas para a cabeça, man?
- Ya, com amaciador ou anti-caspa?
Orlando Paiva Couceiro
Obrigado, Geovanni!
(Obrigado, também a ti, Ricardo, e ao teu prognatismo sobre voz de capuchinho vermelho).
Orlando Paiva Couceiro
Após a longa diligência de acareação que teve ontem lugar no T.I.C. em Lisboa, a SPEMD - Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária divulgou os resultados da mesma, a saber:
- Ferreira Diniz: 3 cáries, 2 depressões;
- Jorge Ritto: 1 siso ocluso, necessita de vir mais uma vez;
- Manuel Abrantes: gengivite, aro da esquelética necessita de intervenção;
- Paulo Pedroso: halitose mórbida, trazer máscara para a próxima;
- Carlos Cruz: dente de ouro delapidado, marcar cirurgia.
Orlando Paiva Couceiro
Informações? Tem de se dirigir à secção central.
Segue-se cena de fellatio com africano de 2 metros.
Orlando Paiva Couceiro
Sabias o que estavas a fazer quando viraste as costas e entraste no carro onde vieste a ficar, sem vida, só porque disseste que não me querias ver mais e que a vida era tua?
Já não é. Eu também não.
Guardo os despojos de chapa e ferro retorcido como a última imagem, daquilo que não fomos, de tudo o que não eras e do que me ficou.
Orlando Paiva Couceiro
Não me custa dizer-te não, mesmo se não to digo, não vás tu pensar que não tenho mais nada para te dizer, ainda que tenha e não possa, só porque não te quero dizer não, como se já não te quisesse, o que não deixaria de te dizer, mas não digo, porque te quero.
Orlando Paiva Couceiro
Cansado...tão cansado que não lembro de ter começado e já não tenho forças para acabar.
Orlando Paiva Couceiro
Para ser Franco, acho que nem com ajuda de Deus, o Manuel consegue o bilhete de I(l)da que lhe abra as Portas para Estrasburgo.
Orlando Paiva Couceiro
Ontem, o jogo da Selecção demonstrou, à saciedade, que a Suécia tem uma taxa de scolarização superior à de Portugal.
Orlando Paiva Couceiro
Somos, em certa medida, um produto das circunstâncias, tal como estas são um produto de nós próprios. É fácil ter e defender um comportamento ético quando a realidade não nos desafia. Mas quando somos considerados objecto de desejo, precipitam-se circunstâncias que não podemos sempre controlar. A carne é fraca. Daí que, características como a beleza e uma personalidade cativante não contribuam, naturalmente, para que se tenha um bom carácter.
Ossos do ofício.
Derek Foreal
Porque será que o Português típico nunca está bem? Está sempre “mais ou menos” ou “assim-assim”. Bem, nunca; no máximo “vai-se andando”... Porquê?
Ao menos agora tá-se.
Protótipo
Durão, qual miss fotogenia do Seixal na Elite Model of the World, só por tentar aparecer na foto seria merecedor de castigo.
Na política interna até se safava, pela ausência de alternativas e pela vontade de mexer com isto. Até agora. Se em 2002 e 2003 estávamos “de tanga”, mal se percebe que, agora, e não obstante um estudo da OCDE que prevê um défice de 3,8 % para 2004, a “casa esteja arrumada”, sendo possível acelerar o investimento e sair da crise.
Já para não falar da apresentação a eleições com um partido “euro-calmo”.
Temos um primeiro ministro que parece uma baby sitter histérica a tentar dar a volta a putos de 4 anos com discursos manipulados, que se põe em bicos dos pés para tentar, de forma ineficaz e ridícula, aparecer em fotografias pelas piores razões e que se alia com um partido a eleições com propósitos meramente eleitoralistas.
Reacção? Esmagamento nas europeias.
Protótipo
Na noite sou um predador. Não um tigre, águia ou serpente – uma aranha. Teço a minha teia, pacientemente. E é nessa teia que elas caem, lenta e inevitavelmente. Que nem moscas.
Derek Foreal
Na sequela do anterior post sobre o assunto, e em nome da probidade intelectual, não poderá deixar de ser assinalado que, de facto, os políticos cá do burgo estão mesmo numa de futebol.
Invectivava eu contra a reacção do Secretário-Geral do PS ao cartaz da Coligação "Força Portugal", quando fora o próprio PS a dar o mote com o cartaz do "cartão amarelo"...
Pois veio agora a Coligação exibir um cartão vermelho a tudo o que se escrevera no dito post, e também eles aderiram à moda...
Não há desculpas a pedir nem inflexões de opinião...
Há o descrédito, que já nem é original nem é de agora e, concluir com Diógenes, o Cínico: "Quanto mais conheço os homens mais gosto do meu cão".
Orlando Paiva Couceiro
Depois do muito que se tem escrito sobre os motivos da guerra do Iraque e o conceito de guerra preventiva que terá motivado a intervenção e ocupação, fica aqui uma achega sobre a fundamentação daquele conceito. A discussão sobre a guerra não é tão básica como bloquistas, comunistas, etc. pretendem quando reconduzem tudo ao petróleo.
No fim da 1ª Guerra Mundial, os países vencedores assinaram o Tratado de Versalhes com a Alemanha, pelo qual a Alemanha perdeu colónias e território na Europa, ficou impedida de ter um exército regular e foi obrigada a pagar pesadas indemnizações aos países vencedores. Anos depois, Hitler chegou ao poder prometendo "rasgar" o Tratado de Versalhes e vingar os alemães.
Hitler veio a anexar a Áustria e a cometer outras violações do Tratado de Versalhes. Tentando evitar a guerra a todo o custo, a Inglaterra e a França, na conferência de Munique (Set. 1938) aceitaram que parte da Checoslováquia passe a pertencer à Alemanha em troca da promessa de Hitler que não invadia mais nenhum território.
Esta cedência teve custos pesados. Obviamente, Hitler não pretendia cumprir a promessa e depois de invadir o resto da Checoslováquia, em 1939 invade a Polónia e inicia a 2ª Guerra Mundial. A história é conhecida: entre Munique e o fim da 2ª GM morreram mais de sete milhões de pessoas.
Na altura de Munique, procurava-se actuar perante uma violação de um tratado de paz. A Europa saíra de uma guerra que causou milhões de mortos e deixou passar aquela violação na esperança de que Hitler ficasse por ali.
A história mostra que foi um erro tremendo.
Depois do onze de Setembro, os EUA invadiram o Afeganistão, com o apoio de grande parte do mundo. Ao mesmo tempo, levantaram a questão das armas de destruição maciça e a possibilidade de venda a terroristas (as consequências são previsíveis). Até há pouco tempo apenas Estados tinham a tecnologia e conhecimentos para produzir armas nucleares; mas sabia-se que um cientista paquistanês, que construiu uma bomba atómica, tinha vendido a tecnologia. Não se sabia- nem se sabe- a quantos Estados, ou organizações.
Neste contexto, invade-se o Iraque, com o pretexto de impedir a proliferação e dar uma demonstração de força aos países que disponham de armas de destruição maciça e impeçam vistorias, controles, etc. Lembre-se que o Saddam Hussein impediu vistorias da ONU durante vários anos, em violação de várias resoluções da ONU- e chegou a usar armas químicas. Daqui o paralelo com o que se passou em Munique. Hoje sabe-se que não havia ADM no Iraque. Mas o Hussein saiu-se bem com o bluff. Saiu-lhe caro.
Inquéritos independentes em dois países onde estes inquéritos funcionam (GB e EUA) indicam que os respectivos governos não deram indicações para alterar factos apurados pelos serviços secretos. Conclui-se pela existência de erros dos serviços de informações, potenciados pelo desafio de Saddam Hussein.
É possível que existissem fortes justificações paralelas para a guerra, inadmissíveis ou não. Mas este problema era real.
A guerra é questionável (mais questionável ainda é a forma como se lidou com o pós-guerra); mas o problema não pode ser debatido com argumentos básicos.
Steve
O (ainda) secretário-geral do PS veio bradar contra o slogan dos cartazes da Coligação ("Força Portugal") e contra o populismo que lhes subjaz, agora que o Euro (ainda...) está aí, levando o incauto eleitor a ir atrás do voto na dita Coligação, quiçá achando que gostam mais de futebol do que o PS. No seu melhor estilo, ameçou queixar-se à Comissão Nacional de Eleições.
De facto, isto de misturar política com futebol tem de acabar! E já!
Haja esperança: já vi por aí uns cartazes que exibem a "amostragem" (sic Gabriel Alves) de um cartão amarelo ao Governo. Seriam do PS? Nãaa, não podia ser...Se calhar são mesmo.
Orlando Paiva Couceiro
Na Antártica, prossegue a caça indiscriminada e injustificada de espécies protegidas.
Na altura da Páscoa, o problema agudiza-se de sobremaneira em relação ao urso folar.
Orlando Paiva Couceiro
Cáspite! Já não posso com o Euro-2004!
Já pude...Quando a decisão foi anunciada e o Carlos-lá-perdi-mais-um-recurso-e-continuo-dentro-Cruz e o Gilberto-como-é-que-se-fala-português-mesmo-com-esta-voz-cavernosa-Madaíl exultavam em beijos e abraços de sexualidade duvidosa. Mas isso é outra história.
Também não vou perder-me em extrapolações estatísticas sobre a utilidade da construção de tantos estádios...Bom, só uma: no eixo Leiria-Coimbra-Aveiro, que não deve ter mais de 100 quilómetros, existem agora três estádios, com capacidade, em média, para 30.000 espectadores; donde, 90.000 lugares.
Ora, considerando que, actualmente, um U.Leiria-Académica ou um Beira-Mar-Paços de Ferreira atrai uns 3000 curiosos da bola, conclui-se que, após o Euro-2004, a taxa de ocupação dos novos estádios deve rivalizar com a de um hotel de 3 estrelas em Madrid com vista para a Estação da Atocha.
Inflectindo, o que me irrita verdadeiramente, até nem será o Euro-2004, mas o novo evento que, a cada dia, temos vindo a assistir continuadamente: o Paliativo-2004.
Os mais distraídos terão já reparado na quantidade de simulacros, simulações e fantochadas que têm entretido polícias, bombeiros, figurantes, desempregados e reformados que não conseguiram lugar para o SIC 10 Horas, neófitos de hooliganismo, exaurindo o erário público.
Ele é "desastres" no IC-19 em dias utéis, logo pela manhã, para testar a resposta do sistema de emergência caso um autocarro com uma horda de ingleses alojados em Massamá se espete às 9 da manhã a caminho da Portugália...
Ele é "cargas policiais" sobre um bando de tugas desocupados que, de sorriso estampado no rosto, fingem ser uliganes a desafiar o Corpo de Intervenção da PSP, armado de rottweillers com ar ensonado - "Devíamos era morder neste gajo que me obrigou a sair da manta do canil onde estava entretido a roer-lhe o casse-tête".
Ele é o controlo, revista e busca inusitadas a adeptos do Moreirense no derby com o Guimarães:
- "Desculpe, se quiser entrar com essa sande, tem de tirar o presunto, só pode entrar o queijo, e apenas uma fatia. E a criança fica detida para memória futura".
- "Mas...mas...."
- "Aiii, ó Silva, traz os cães! Isto agora com o Euro é assim e mai nada!"
- "Mas, se aquele senhor jornalista pode entrar com a pistola..."
(consta os canídeos adoraram as ditas sandochas)
E tudo isto sob o olhar embevecido do sibilino Figueiredo Lopes, ou do Secretário de Estado que o acolita, de cartaz em riste "Já 'Schengen' de estrangeiros!"
Pior, pior é que o critério para tais role play é tão só o Euro-2004. Se, num qualquer evento de massas que não esteja rotulado como "Teste para o Dito-2004", tudo pode correr mal, a polícia pode ir passear os cães para a praia, que não há crise - "Houve, de factos, alguns aspectos que correram menos bem, mas o importante é que não se tratava de um jogo-teste para o Euro".
Já nos jogos-teste e afins, se as coisas correm menos bem emerge o argumento-calendário: "Ainda faltam 2 meses, temos tempo para acertar agulhas, estamos em permanente colaboração multi-disciplinar com as entidades competentes e o importante é estarmos unidos à volta deste desígnio nacional e têm sido feitos progressos".
Hã, hã.
De qualquer forma, acho que vou aproveitar para uns "testes para o Euro":
- "ó Senhor Agente, eu sei que vinha sem cinto, bebi seis vodkas, a inspecção devia ter sido feita até 30.11.2002 (esta é verdade...), mas, porque bolandas me vai autuar?? Este trajecto que estou a fazer não era teste para o Euro-2004, pois não?"
- "Ah, tem razão, sr. condutor, nem preciso de ver os seus documentos. Vá lá e que ganhe Portugal!"
Orlando Paiva Couceiro
Li hoje uma notícia que me pôs a pensar.
O contrabando de tabaco de tabaco dos países do Leste Europeu para os do Ocidente interessa às tabaqueiras: o tabaco fica mais barato para o consumidor final, o que significa um maior consumo. Quem perde são os Estados em receita fiscal. Pensa-se que, talvez por isto, a Philip Morris tenha "inundado" os mercados de Leste de tabaco; os excedentes são contrabandeados para os mercados a ocidente a preços convidativos. A Comissão Europeia tem acompanhado este processo.
Infelizmente para as tabaqueiras (e para o consumidor), com o aumento do consumo de tabaco, aumentou também a falsificação.
Consequentemente, as tabaqueiras começaram a vender menos e entraram em conversações com a Comissão. As duas partes acordaram que a Philip Morris paga à comissão um bilião de dólares em doze anos pelas práticas acima referidas (comprometendo-se a acabar com elas) e a comissão zela pelo controlo da falsificação.
Assim, os Estados continuam a angariar receita e as tabaqueiras a vender.
E eu a fumar.
PS- Onde é que andam esses maços do Leste?
Steve
Comemorei os meus anos. Voltei a constatar que chegar atrasado faz parte da condição de português. Neste campo sou tão português como os outros 10 milhões. Será congénito? Hereditário? Neste caso, quem começou? Não fui eu.
Enfim, dia seguinte, má disposição e o azar de ter uma festa de (nove) anos, à qual cheguei atrasado. Entrei, cumprimentei. Fui à casa de banho vomitar uma primeira vez, consegui disfarçar. À segunda foi mais óbvio: tive que me levantar rapidamente para ir vomitar e não cheguei a tempo de acertar na sanita; mal abri a porta vomitei o chão, parte da parede e parte da sanita. Ninguém tinha reparado em nada, mas aperceberam-se quando fui pedir uma esfregona.
Infelizmente, não havia um buraco do meu tamanho (e a sanita estava nojenta).
Já não tenho idade para isto; aliás, já não vomitava de ressaca há mais de dez anos. Escolhi bem o dia. Digo a cada ressaca que vou deixar de beber, de fumar, etc. Tudo sincero. De volta ao português típico: amanhã vou fazer isto e aquilo. (Diga-se em abono da verdade que estou mais um animal de sofá que da rua).
Engraçado: às vezes olho para trás e penso que cresci. 43 largo, saí da faculdade, almoço fora, vou a casamentos, pago a conta da electricidade. Se crescer é isso, sou enorme. Mas acho que não é e vivo melhor assim.
Steve
O meu batido
Traz todos os gajos aqui à zona
Podes crer,
é melhor que o vosso
Posso ensinar-te
Mas vou ter de cobrar
(os gajos estão à espera)
Orlando Paiva Couceiro (featuring Kelis)
Se os da Suécia são suecos porque é que os de Marrocos não são marrecos?
Orlando Paiva Couceiro
“Boa com’ó milho”, é a expressão que usamos para qualificar uma mulher que tem tudo no sítio. Mas porquê como o milho?, será o milho assim tão bom? A expressão não tem sentido. Se é óbvio que nenhum alimentício me dá a mesma satisfação que uma gaja boa, ao enveredar pela gastronomia, ao menos podia ter-se escolhido uma cena bacana, como as plumas do Stop. Mas não, foram escolher o milho. Ora, o milho nem faz parte da lista, quando penso em coisas boas. Alguém já pensou em dizer que uma gaja é boa com’ó agrião ou com’á beterraba, ou, saindo da culinária, como um uma rolo de papel higiénico?
Protótipo
Todas as manhãs, enquanto pululo pela minha suite, entre nós de gravata e passas avulsas no cigarro que se vai consumindo - e, para quem como eu, convicto e fiel fumador, me deixa logo levemente enebriado - costumo ter a televisão ligada. Na TVI.
Na senda do populismo e do alarde que a caracterizam, exibiam hoje a "reportagem-choque", de câmara oculta e repórter atrás dos arbustos, sobre as viagens de carro dos ministros, não se coibindo até de perseguições às viaturas oficiais dos ditos, as quais, invariavelmente, circulam em excesso de velocidade. (calculo que nos EUA a ousadia valeria perseguição do FBI e tiroteio, isso sim, daria uma boa reportagem...).
De permeio, mostravam declarações dos "perseguidos" sobre prevenção rodoviária, nas quais, naturalmente, apelavam ao civismo e à educação. Só que, quando exibidas a seguir àquelas imagens, evidenciavam uma total contradição. Pois é, a "tabloidização" ou o "tabloidismo" é isto mesmo!
É pegar no acessório, no perfunctório, e passá-lo como essencial, como se a agenda de um ministro - seja de que Governo for - permita abrir um pólo universitário no Minho e vir paulatinamente, a 120 km/h, para uma reunião com sindicatos em Setúbal.
É certo que a perda de respeito e o descrédito na classe política muito se deve aos respectivos membros. Mas que diabo! Deêm-nos notícias, senhores Jornalistas! É que assim até parece fácil e divertido!
Já só falta a SIC vir com uma reportagem choque sobre jornalistas-que-perseguem-ministros-em-excesso-de-velocidade-e-consequentemente-também-vão-em-excesso-de-velocidade. E o último que apague a luz...
Já sei, Dear Prototipus, sou um "reaça", but u know I luv u as much as u luv me
Orlando Paiva Couceiro
O Bitakes tem mais um escriba! É o Steve, que vem enriquecer o nosso espólio de pérolas.
Mesmo se tantas vezes são pérolas a porcos...e, outras vezes, mais raramente, a porcas.
Bem vindo Steve!
Orlando Paiva Couceiro
Passei dois meses a coçá-los e a olhar para números, sem qualquer horário de trabalho. Aliás, com um horário de trabalho de 4,5 horas semanais (o que é o mesmo), que me obrigou a mudar de roupa à noite para ir trabalhar. Senti-me um guarda noturno.
Não pensava em números à onze anos, detestava e agora não gosto mais que na altura. Os fins justificam os meios? Depende do caso, varia entre o "sem dúvida" e o "não" intlectualmente coerente com os valores ocidentais.
Voltei ao trabalho. Inscrevi-me num ginásio. Fui lá com duas gajas lá do escritório e o david, um gajo bacanissimo. Insistiram em instalarmo-nos em máquinas seguidas. Fiquei no meio. Elas não são atléticas (regra no escritório), o david nunca fez ginástica na vida- nem na escola. Eu era o único a correr, eles andavam e falavam. Passado cinco minutos eu estava a suar por todo o lado; a conversa continuava. Dez minutos. A minha cara inchava. É normal, já não corria há meses. A conversa continuava. Tentei falar, desisti e basei. A conversa continuava. A loucura da normalidade; ir com o pessoal da loja para o ginásio. Estes três são bacanissimos- mesmo- mas acho que suar é uma coisa bem pessoal ou bem acompanhado. Passei para a zona das máquinas.
Nunca tinha ido a ginásios, mas este está bem conseguido. Era perfeito para ir sozinho, infelizmente há que partilhá-lo. O pior é o banho turco.
Espero voltar, há tanto tempo que digo que vou voltar a pôr-me em forma que espero que desta seja de vez.
Veremos.
PS- coisa extraordinária- acabei de acender um cigarro com um isqueiro que diz "Fátima" de um lado, com a imagem da Senhora Deles (sem conotação negativa, sinceramente) e do outro um mapa de Portugal. Convertam-me (em euros sff)
Steve
Uma equipa de cientistas acaba de anunciar a clonagem de Lance Armstrong, a quem chamaram Ciclone.
Orlando Paiva Couceiro
William Baldwin para Sharon Stone, no second date, quando se encontram para jantar fora:
You look good enough to eat
Ira Levin, Sliver
Protótipo
Há uns dias, Só ares espantou o país ao dizer que é necessário negociar com os terroristas da Al-Kaeda. Naturalmente, caiu-lhe tudo em cima. Às criticas, Só ares responde com o insólito: negociar não é ceder.
Só ares tem de vir comprar ganza comigo.
Protótipo
O casamento é um evento kitsch. Consequentemente, muito do que lhe está associado nutre de semelhante característica. Entre tais cambiantes, a mesa ou à mesa. Não a dos noivos - nunca fui noivo nem padrinho – mas a do “convidado regular”.
A minha mesa há-de ter o nome de um pintor, de um par famoso ou de qualquer outras coisa que, para todos os efeitos, unirá o convidado regular aos restantes convivas que com ele se sentarão à mesa. Ainda antes do jantar: “Ai, desculpe, queimei-lhe a écharpe…Ah, não faz mal, está na Picasso, não está? Por acaso, estou. Deixe estar, então, a ver se lhe entorno molho de manteiga na gravata. Ok, até já.”.
Qual Abel Dias, tento associar os nomes do libretto do qual consta a lista das mesas às respectivas caras, olhando, sucessivamente, para os nomes da minha mesa e para a antecâmara do jantar, tentando descortinar um dos meus. Nada…Qual terá sido o critério? Porque é que o Carlos S. Costa e a Patrícia D. Morais estarão na minha mesa? Será que ela é boa? Será que se incomodam com o fumo dos cigarros? Pior, estará ela grávida e dominará a conversa com epidurais e afins?…veremos.
Chegado à mesa, o ritual das apresentações. Olá, sou o Orlando. E depois, cada um repete o seu nome. Nada de extraordinário, protocolar e cordato. O pior vem depois. De cada vez que me interpelam, seja para pedir para afastar o cigarro ou para perguntar se tenho filhos, de indicador em riste “Hmm…Orlando, não é? Olha, importas-te de não fumar? Afinal estamos num casamento.” Claro, claro…hmmm, Carlos, não? Olha, e tu, Paula…ah, desculpa, Patrícia…estás de quantos meses?
Chega a entrada. Para quebrar o gelo, fala-se da dita entrada: Ai, está com óptimo aspecto, eh pá não posso, sou alérgico a marisco, olhe não me pode trazer outra coisa? Num casamento que fui na semana passada, havia uma entrada parecida com esta, mas não era bem igual...Tudo isto sob o olhar silencioso do casal amigo que calha sempre na mesa e que, agorafóbicos, se ficam pelas apresentações e sussurram um ao outro e, eventualmente, antes do segundo prato já todos percebemos que não estão bem, ele queria vir, ela não, mas como é ciumenta e insegura quando ele bebe também acabou por vir e já só vê a hora de se ir embora, enquanto manda chispas com o olhar “à cambada de putas voluptuosas que vão aos casamentos com decotes, só para o ataque, e que merda deixa-me lá descalçar um bocadinho o pé esquerdo, que raio de ideia a dos saltos altos, e devia era ter trazido as meias de descanso que, mal por mal, também ninguém repara no coirão que eu sou”.
Quebrado o gelo, sucessão de perguntas, aparentemente desconexas entre si, mas que vão mantendo um fio de conversa até á altura dos cafés. “Então, e…Orlando, não é?, és da noiva ou do noivo? Olha, coirão, nunca pensei nisso, mas tens espargo e salsa entre os dentes.
“Olha, e fazes o quê?”. “Tss, advogado? Por acaso estava aqui a sussurrar com o meu marido, o Xana, e disse logo que devias ser…Vocês são todos iguais” Ai sim? Então, porquê? Só se for porque nunca nenhum se interessou por ti, balofa, e, by the way, estás a comer com um garfo de carne e uma faca de peixe…mas deixa lá, também fazes brindes com água em flûtes. Calça lá mas é o sapatinho…
Já no degelo, e quando começa o corrupio entre mesas, amigos que procuram amigos desaparecidos noutras mesas e querem saber como se estão a aguentar, vêm os amigos do casal amigo, desterrados que estavam noutra mesa. Lá se repete o ritual das apresentações e-não-é-que-esta-gaja-ainda-me-aponta-o-dedo-Orlando?,não é? Ele é advogado, malta. Não se vê logo? A malta era um mancebo de perinha fininha, já a beber whisky quando ainda não tinha sido servido o café, já a fumar charuto (porra, será amigo dos empregados?) e foi o primeiro a tirar a gravata… “Acredita, são mesmo todos iguais…e ri-se olimpicamente enquanto, desajeitadamente, dá uma baforada no charuto, amarfanhado entre os dedinhos gordos, onde avulta a aliança-pechisbeque-de-namorado, ele também membro de um casal amigo qualquer.
Aproveito a deixa para me atirar à tábua dos queijos e, também eu, ir saltitar para uma outra mesa qualquer, à procura de refúgio…Daqui a bocado vamos estar todos juntos outra vez, a dançar Men at Work, enquanto ele nos presenteia com o seu solo de trompete invisível. Já não lhe falei, tinha a desculpa de já estar bêbado e ele o consolo da sua preciosa já ter adormecido na cadeira, com os presuntinhos inchados e a sonhar com o dia do seu casamento. Esse sim, de arromba!
Só espero não ser convidado.
Orlando Paiva Couceiro
A moderna imprensa de costumes não pára de me surpreender. Sempre que posso - na sala de espera do dentista, na casa-de-banho dos amigos ou na fila do supermercado - pisco o olho àquelas páginas lustrosas, feitas de caixas de destaque com frases anódinas, tantas vezes cheias de recados subliminares sobre a vida amorosa da "figura" em destaque.
Numa dessas ocasiões, folheava a Nova Gente e detive-me na reportagem de fundo sobre a vida financeira do casal Rute-Silicone-Marques e Bernardo-que-raio-de-apelido-Macambira.
Então não é que este nosso casal está à beira da ruína. POr mais lugar-comum que possa parecer, a história ilustra bem a cultura da aparência que grassa cá no burgo.
Casadinhos de fresco, atiraram-se de cabeça para a piscina da casa que adquiriram no Norte, contra o débito directo da prestaçãozinha ao Banco no final do mês, daquele empréstimo de uns chorudos milhares que a toca custou.
Como se a Rute tivesse sido convidada para "um novo projecto televisivo em Lisboa", mudaram-se de armas - sacos de silicone incluídos - e bagagens cá para baixo. No afã das mudanças, onde, por experiência própria sei que nos esquecemos sempre de alguma coisa na antiga casa, os nossos macambiros "esqueceram-se das prestações ao Banco" (sic). Vai daí, e porque isto de ser vedeta não nos livra destas contrariedades, os agiotas do instituição de crédito "foram para tribunal".
Já instalados na casinha arrendada de Cascais, logo tiveram chatices com o senhorio, pois o grandessíssimo, o porco, contra o que havia prometido, não instalou o aquecimento central. Quer dizer, não se faz, é mau. Denúncia do contrato e rendas para que vos quero!..."Boa tarde, é o carteiro e tem uma carta registada".
Prosseguindo no itinerário imobiliário, ocuparam, então, uma vivendinha mais modesta, algures no eixo Sintra-Cascais, "uma casa velha". Quando parecia que ali poderiam ser felizes, entra outro senhorio sem escrúpulos, que, recusando-se a aumentar a potência do quadro (afinal, esta malta do jet-set também se debate com problemas comezinhos), viu o casal amigo "dar às de Vila Diogo" e, como no filme, o carteiro toca sempre duas vezes....
Tudo visto, devem uma pipa de massa... Mesmo na adversidade, esta gente da alta não perde a postura e o glamour e farão questão de pagar as dívidas....ao cobrador do fraque.
Orlando Paiva Couceiro
O boletim meteorológico do telejornal das nove, que passa lá para as nove e cinquenta e cinco na Sic Notícias, porque inaudito, inesperado e quase surreal, é um dos melhores produtos televisivos do momento. Em vez da habitual voz off explicando os gráficos meteorológicos, ouvimos o grande Mário Crespo embarcar numa trip pela história aparentemente despropositada, que vai desde o Gungunhana aos reis católicos ou ao regicídio. Lições de história no boletim meteorológico é muito à frente. Como diria o próprio Mário: – Rigorosamente.... a não perder.
Se a moda pega qualquer dia temos José Hermano Saraiva como pivot de um filme do Sexy Hot:
- E foi aqui......, nesta sala......, em Guimarães......, no ano de 1128, que D. Afonso Henriques, o Conquistador, homem poderoso e detentor de um valente membro, pela primeira vez desflorou Dona Mafalda de Saboia com a sua real glande – uma glande magnifica, diga-se -, tomando-a [abrindo os braços e esbugalhando os olhos], depois desta destemida masturbação de seios, numa soberba kanzanada!... e foi exactamente neste momento [apontando para o ponto nevrálgico], às catorze horas e vinte sete minutos do primeiro dia de Maio, nesta estocada heróica especialmente incisiva [babando-se], que terá garantido descendência, na pessoa de D. Sancho, Povoador do nosso Portugal.
Protótipo
Esperei, esperei, até chegares para dizeres que amanhã já não vinhas. Tanto pior para ti, que tenho tempo.
Orlando Paiva Couceiro
Um amigo há dias sugeria que, inspirados no slogan que derrotou Bush pai – o famoso “It´s the economy, stupid” -, os Democratas também deveriam presentear Bush filho com o slogan adequado, que, atendendo aos atributos da criatura, só poderia ser o seguinte:
“It´s you, stupid!”.
Protótipo
Logo que sentiu o cu a aquecer, Durão Barroso tem tentado criar uma certa empatia com o povo, o que é normal. O problema é que, não tendo carisma, quando tenta força a nota - principalmente quando semi-cerra os olhos, como alguém que perde as lentes, ou que tenta largar um calhau há vários dias alojado na víscera tubular músculomembranosa que vai do duodeno ao recto.
Caga nisso, man, tens perfil de quem executa, és um pragmático, um terra-a-terra sem brilho, sem flair, e por isso deixa o carisma para quem o tem e, principalmente, não semi-cerres os olhos. É que irrita pa caralho.
Protótipo
O.P.C.: tou à espera do humor negro – mas tem de ter muito nível.
British Expeditionary Force . Fazendo jus ao nome e à longa história de violência no futebol, aí estão os bifes, na vanguarda do vandalismo. Já não bastava a selvajaria dos adeptos das equipes de futebol inglesas, agora também os próprios jogadores se comportam como hooligans.
Sabendo que vem aí escumalha aos milhares, ansiosa por varrer este país, chegou a hora de vingar a nossa história. Aproveitando o poder avassalador deste púlpito, exorto o pessoal do Intendente, Curraleira, Xabregas, Cova da Moura, Bairro da Boavista e Zambuja, Zona J, Chelas, Casal Ventoso e Musgueira: saiam do gueto e venham cumprir o vosso dever cívico – à chinada, pontapé e cabeçada.
In the name of the truth!.... In the name of my father!
Protótipo
Espanha está a construir o computador mais potente do mundo. As coisas maiores do mundo trazem-me sempre uma espécie de desconforto. Especialmente tratando-se de computadores. Chego a ter medo da sua falsa inocência e desconfio da sua submissão aparente. Já me transformaram suados parágrafos num puré de adjectivos mas acabo por perdoá-los porque têm benemerência na facilidade dos meus dias.
Portugal fez o maior bolo rei do mundo. Não duvido do orgulho genuíno de muitos portugueses perante as coisas em que somos os maiores do mundo e por isso prefiro não as enumerar.
Espanha anda há anos a dar-nos uma lição de desenvolvimento sustentado. Aumenta a produtividade anualmente, e consegue fazê-lo diminuindo a taxa de desemprego.
O happening económico português em 2003 consistiu num singular crescimento negativo. Como não temos computadores para facilitar Portugal recorremos a gente brilhante como Pedro Ferraz da Costa que tem a solução para os "problemas estruturais" da nossa economia: despedir cerca de 150 mil pessoas.
Para além de obtermos assim o record mundial do despedimento vamos já desbravando caminho para o que se segue: a maior taxa de abstenção do mundo. Fala-se em 70%. Acho pouco. Os policias ameaçam manifestações durante o Euro, os bombeiros estão preocupados porque não conhecem os estádios do euro, os jornalistas indignados porque eles próprios conseguiram entrar com um isqueiro, que podia ser uma arma, num estádio do euro, o resto da população ou está entorpecida com o euro, ou fugiu.
Da mesma forma que Eduardo Barroso sonha com um Portugal sem droga, eu sonho com um Portugal sem votos.
Votos para quê? Somos os maiores.
VM
Quando tinha 18 anos um filha-da-puta deu a fuga depois de provocar um desastre de carro que me mandou pó estaleiro durante o ano que se seguiu – digamos que sofri mais que o Colonel Trautman, quando foi torturado pelos Russos no Rambo III. Como o Fundo de Garantia Automóvel não se chegava à frente, pusemo-lo em tribunal, que decidiu passar 8 anos a decidir que o meu sofrimento valia 4.400 contos. Com esse dinheiro comprei um Golf – assumindo assim uma característica típica do Tuga, ao comprar carro sem ter um tuste.
Um carro pago com sangue, suor e lágrimas.
Já agora, esta pérola:
Trautman: - Rambo, are you reading me? Company leader to Raven! Rambo! Acknowledge!... Company leader to identify Baker Team - Rambo, Messner, Ortega, Coletta, Jurgensen, Barry, Krakauer confirm! This is Colonel Trautman.
Rambo: They're all gone Sir.
First Blood, vulgo, Rambo I
Protótipo
Se não me tenho desviado a tempo tínhamos morrido. Tínhamos morrido.
Este país chupa-nos os dias e o tempo e ninguém se indigna. É que infelizmente nem toda a gente se indigna como o senhor do pontapé no aparelho. E se não somos um país de Avelinos, decerto somos um país com demasiada gente estúpida. Através de inumeráveis piruetas e espasmos, em Portugal a única coisa que não mudou foi a percentagem de estúpidos. Às vezes apetece-me abri-los de cima a abaixo. Mas não sei sequer como esfolar o ventre traiçoeiro de um calhau. São muito mais difíceis de atingir que os intelectuais. E um estúpido em pé vai muito mais longe que um intelectual sentado. Ou um mentecapto presidente de câmara. Acaba por ser um pleonasmo porque aquilo a que em linguagem clínica se chama de mentecapto, em português chama-se presidente da câmara. E tão portuguesa que é a indignação. Que orgulho ao ver os nossos presidentes indignados com os pénaltis. Nós que já quase não temos nada com que nos indignar. É que em Marco de Canavezes já há muito que se ultrapassou a maçada do trabalho infantil, o aborrecimento das famílias que trabalham 18 horas por dia em fábricas aconchegantes, e nas ruas apenas se encontra gente em paz na prosperidade dos ferraris. Gente que engole toda a merda com que lhe encheram a vida menos o penalti. E o presidente indignado:
- Onde já se viu um homem trabalhar desde os 4 anos para ainda lhe roubarem penaltis.
Em Lisboa não batemos em árbitros. Primeiro porque não sabemos e depois porque antes teríamos que fazer um simulacro. Como aquele que algum génio, no Domingo passado, se lembrou de fazer no IC19. No pacato IC19 um acidente, coisa que naquelas bandas apenas se tinha ouvido falar. Em Lisboa aplaude-se o simulacro de provincianismo bacoco tão bem realizado em Marco de Canavezes. Mas como somos mais ambiciosos vamos pôr mãos à obra para mais dia menos dia simular a estupidez generalizada. Parece que ao longo do ano se tenciona preparar os portugueses para todas as contingências. A começar com um simulacro de vaidade política. Seguido de um simulacro para preparar a possível chegada da ostentação.
Talvez até um dia se faça um simulacro de um país sem Presidentes de câmaras com nomes de estádios, sem o eu é que sei de todos os dias, sem ignorância hereditária, sem gente que não percebe que um dia morrem e não foram menos que nada.
Neste país mora uma resignação tão grande que é melhor não lhe tocar. Vivemos numa paz enorme como quando tudo está finalmente arrumado. Uma paz tão grande que apesar de se terem esquecido do que a vida acaba nem sequer lhes vou tocar. Nem lhes devia dizer nada. Pelo menos até se fazer um simulacro de um país confiante, asseado, feliz, só para estarmos todos preparados para a remotíssima eventualidade.
Quando algum dia a morte apontar o dedinho aos Avelinos deste país
- Tu
ainda se esquecem de a chamar de ladra na única vez que tinham razão.
Quando tudo está finalmente arrumado o melhor é não mexer em nada. E também quem é que se lembra que um dia o tínhamos deixa de acompanhar o morrido.
VM
- Quantos anos fez, Sr. Cruz?
- Não sei precisar, Sr. Juiz, alguns foram no mesmo dia.
Orlando Paiva Couceiro
Pelos campos semeados de flores, pelos campos semeados de ilusões, a minha alma ladra de dores.
Orlando Paiva Couceiro
Alice, uma paranóia de céu e milagre, pela mesquinhez da corrente eléctrica, que me atravessa, e transforma o gesto e a palavra num líquido viscoso, que provoca o vómito no estômago mais forte. É impossível imaginar o sexo, devido às arestas cortantes que me trespassam, deixando-me em pedaços de carne espalhados pelo balcão, ensanguentado, de um talho qualquer.
Orlando Paiva Couceiro
Às quartas-feiras estou no precípicio, sem saber se vale a pena deixar para trás a segunda e a terça, não vão a quinta e a sexta ser piores.
Orlando Paiva Couceiro
Eh!eh!Eh! Tens imensa piada!Bem, nunca pensei...Devias era ser escritor, nunca pensaste nisso? Os outros também não são maus, um de emoções desenfreadas onde só ele mesmo chega, outro raramente aparece, mas quando o faz, são cá uns testamentos, mas vale a pena ler, será que com tanta sensibilidade é gay?...,bem, mas tu, onde é que vais buscar aquelas coisas?, eh, eh, eh, só de pensar já me estou a rir, olha, pena não ser a vir, eh, eh, eh, vês, até já eu digo piadas, devias ser fresco na escola, ó se devias, sempre a mandar bocas aos sôtores, aposto que as gajas te adoram, pelo menos para amigo, qu'isto como está hoje em dia o melhor é mesmo a abstinência, mas diz lá onde é que vais buscar aquelas tolices, mas sabes escrever outras coisas, sei lá, do género do outro que aparece pouco, sempre ficávamos a saber mais um bocadinho de ti, para além de teres piada, eh, eh, eh, só de falar nisso até me rio outra vez, és um prato, mas no fim da refeição vais para a máquina, e sais de lá igual, nem mais nem menos, serves para mais uma refeição e, com sorte, da próxima lavagem ficam dois bagos de arroz ressequidos agarrados a ti, e é o que se aproveita, é que também já é um abuso, crias a expectativa, e depois vai-se a ver e...nada!, até já antecipo a piada, a graçola, eh, eh, eh, não tens vida?, ou os dias passam por ti e não consegues extrair o que for para dizer qualquer coisinha, sem ser o trocadilho cansativo, as piadas com o teu umbigo, ou então, não me digas que agora te deu para a timidez, para o encolher de ombros, pois, é mais fácil, como as tuas piadas, e..h., olha, já nem me dá vontade de rir, apetece-me espancar-te e amolgar-te os nós dos dedos, para que te doa quando martelas no teclado armado em estenógrafo, isso sim tinha piada, e com a desarticulação talvez escrevesses...olha, se calhar inventavas mais uma piadinha, mas como era sobre ti talvez me risse, mas não, insistes em não fazer parágrafos, em abusar das vírgulas e borrar-nos o monitor com uma mancha gráfica densa, tão densa, quando o que escreves é tão leve, isso, leva-me, leva-te, deixa-te ir, não precisas de me fazer rir, faz-me só sorrir, melhor, não faças nada, não esperes que leia, se ler, digo-te, se gostar gosto, mas posso tornar a não gostar.
Acho que percebeste.
Orlando Paiva Couceiro (no divã)
Um escuteiro ao gaguejar "Sempre alerta para servir!" tem um dilema?
Orlando Paiva Couceiro (de regresso à piada fácil)
Já tínhamos o João Carlos Espada e o Pulido Valente, cabeças pensantes, com nível, que remam contra o mainstream infecto-contagioso do politicamente correcto herdado do pós 25 de Abril. Mas finalmente aparece alguém na imprensa com pensamento claramente de direita e que chama as coisas pelos seus nomes, sem medo ou papas na língua. Muito bom, para pensar, concordar ou discordar.
Protótipo
Mortal, imperfeito, inseguro. Frustrado. Disperso, como um mão-cheia de areia soprada no ar. Inócuo, ausente de mim próprio, atado. Cacos, e eu descalço.
Confiante, habilidoso, perspicaz, clarividente. Crusing relaxed. Subtil, profundo, contundente. - Adrianne! - Vencedor. Fulgurante, poderoso, aos saltos no topo das escadas de Filadélfia.
No meio, a virtude.
Às vezes não sei se sou o mesmo gajo com temperamentos diferentes ou se tenho diferentes personalidades com o mesmo back bone.
Protótipo
Sabia que era noite lá fora porque tinha acabado a oitava aguardente, na oitava já era sempre de noite.
Desde que me divorciei tenho uma vida organizada: levanto-me tarde, nunca me encontro no espelho, só faço a barba quando me pica, e lavo sempre os dentes porque não há nada como uma boa aguardente de boca lavada.
Quando é de noite regresso a casa, onde a ausência se espalha pelas assoalhadas como lava, pelo caminho desvio-me de candeeiros e cabines telefónicas inusitadas no passeio, ceio duas carcaças com margarina, limpo a moldura que encerra o feitio da Tita sob uma mesa com mais garrafas vazias que um vidrão, olho para o telefone morto à dias visto que eu próprio o desliguei,
(assim suporto que não toque)
porque decerto a Tita me telefona a toda a hora. E adormeço com o tremor dos primeiros comboios que gritam atritos num arrastar contrariado.
Telefonar aos amigos não é viável porque embora a taxa de penetração de telemóveis neste país seja admirável, sinal inequívoco que os portugueses gostam de tudo o que só se paga depois, ainda não chegaram às gaivotas do Tejo, e incomodar a estas horas os sonhos da minha mãe está fora de questão.
O silêncio rebenta-me todo, sempre que o sinto a tocar-me no ombro viro-me de repente e ameaço-o com a garrafa que estrangulo na mão. Naquele esgrimir de bagaço urro o nome da minha mulher e da minha filha e fecho os olhos como se ao fecha-los desaparecesse tudo. Como tudo permanece igual, ou não bem igual, mas na mesma, e a única resposta não passa de um bater de ossos do lado de lá da parede, concluo que já adormeci porque não estou a beber e não berro ao perder contra o silêncio, não oiço comboios, nem como carcaças mirradas com margarina.
Não respondem aos meus gritos mas sei que estão em casa. A minha filha absorta nas insinuações dos catálogos e Tita na cozinha, de pé em cima de um banco, com a cabeça inclinada a espreitar para o fundo do armário. É uma inclinação que dura à alguns meses. Desde que fui despedido ela limpa o pó que já não preenche o fundo do armário, no mesmo sítio outrora ocupado pela paciência amarela das latas de atum. Para mais, tanto tempo inclinada trouxe-lhe dores nas costas, ansiedade, irritabilidade, enfim, um festim de mazelas da alma, que levaram a que uma ligeira inclinação para dentro de um armário se tornasse num grande salto para os braços de quem a apanhar.
Não respondem aos gritos mas sei que estão em casa, apesar de me surpreender a desordem sem recriminação e o facto de aceitarem sem protesto as fragrâncias alcoolizadas que levitam os próprios móveis, suspensos num ar espesso de destilaria. Mais dia menos dia, vou me aproximar devagar do banco de onde sei que a Tita nunca saiu, vou pegar nela cuidadosamente e colocá-la ao meu lado, e vamos jantar os dois, visto que à minha filha vou deixa-la sossegada a sonhar com lingerie e cirurgias plásticas porque a sua dieta é à base de ar. Vou ligar a televisão para quebrar a tensão do reencontro, que só de pensar faz-me tremer como uma mancha, como quando tremi no altar,
- Vou mesmo casar com esta loira?
e não mais parei de tremer até fechar a porta da casa de banho do hotel no sul de Espanha onde passamos a lua de mel patrocinada pelo meu sogro,
- os pombinhos vão para Benidorm
e na qual fingimos sem mácula dez dias de felicidade.
O jantar correu lindamente, sem uma única discussão, o atum está cada dia que passa mais delicioso. A Tita fez um pouco de cerimónia ou talvez não tenha gostado porque o prato dela continua cheio, os talheres no sítio onde os coloquei, e a sua cadeira está vazia. Eu gostei, auxiliado por uns quantos pénaltis providenciais que tudo fizeram fluir. Encontrámos por fim harmonia em casa e na nossa vida conjugal, eu a beber vodka atum e ela de rabo espetado no ar e cabeça enfiada no armário da cozinha, de costas para o que os psiquiatras chamam de processo de auto destruição mas que na verdade não passa de uma insinuante tranquilidade, que Tita assiste de cima do banco, como se observasse a minha própria morte.
Joaquim
Ao acordar sacudi a cabeça, como se as tonturas conseguissem espantar o que me acontecia, mas o que me veio, deitado na cama e já com o fôlego a estabilizar, foi uma sensação de pura desmoralização, de vítima de logro de uma mulher sem escrúpulos, de rebaixado, de inferiorizado, derrotado. Só que comigo não há problema.
Joaquim
Comigo não há problema. Mas fico preocupado contigo, não quero que te aborreças mais. As coisas não podiam ficar assim para sempre. Afinal, o que é que dura para sempre? Não eras mulher para isto, não merecias viver dentro de um cubículo com a auto-estrada no peitoril da janela que não é de vidro duplo, e com um engenheiro que projectou a remodelação da mercearia da esquina e deixou dois guindastes afogarem-se no Tejo perante o escárnio das gaivotas, que o melhor que te deu foi levar-te em excursões reumáticas até ao sul de Espanha porque andar de avião nunca foi para os meus bolsos e tu para as tuas amigas
- O Joaquim tem um medo de aviões que se pela
Comigo não há problema, não te preocupes: compreendo perfeitamente que tenhas ido. Nem entendo como durámos tanto.
(Se bem que Benidorm não foi assim tão mau)
Acho que já me habituei à ideia, foi fácil porque nos víamos cada vez menos. Será que alguma vez nos vimos? Claro que nos primeiros dias me vai custar um pouco ouvir o elevador passar pelo nosso andar, meu andar, é normal no principio custar um pouco, depois passa. É normal.
Ainda ontem de madrugada tive a certeza que eras tu a abrir a porta do elevador, abracei-te, chamei-te de amor, mas não passavas do filho da vizinha do lado que voltava da tropa, e repeliste-me como se fosse uma testemunha de jeová, disseste-me para deixar de beber e aconselhaste-me
- Vá-se tratar antes que seja tarde.
Não preciso de tratamento. É normal ao principio custar um pouco, depois passa. Um mesito ou dois e estou como novo, acaba de vez a choradeira desalmada, deito fora a pilha de jornais amontoados na banheira, talvez até abra e folheie os mais recentes, volto à praia de Santo Amaro para conversar com as gaivotas enquanto corro, explicar-lhes que desde que me divorciei tenho tido uma vida muito mais organizada e que num mesito ou dois esqueço o teu nome. Tita. Que raio é que Tita tem a ver com Francisca. Desculpa mas as coisas são assim, eu sei que vou esquecer,
- Qual Tita?
E nessa altura o teu nome já não me vai entalar o peito, deixo de o escrever no embaciado dos caixilhos, a tua própria cara escurece, perde os contornos e transforma-se numa nuvem quase a chover.
Num mês ou dois deixo de chorar as amígdalas, arranjo um emprego, e não vou mais verbalizar-te. Sei que ainda me amas mas assim não dá. Vou voltar para casa onde espero que estejas à minha espera e sei que não estás porque te foste embora. Não estás porque já anoiteceu e não te vejo. Se calhar é sempre noite quando nos divorciamos.
Joaquim
Não é bem divorciado que me sinto, mas viúvo, ou melhor, viúva, daquelas de preto por fora e mais preto ainda por dentro, sozinho numa orfandade de cão, a farejar erros na minha vida, a escavar memórias até me doerem as unhas, e a desistir, simplesmente desistir como um astronauta abandonado na universalidade, a olhar o espaço dias a fio, como sem que ela notasse eu olhava o seu perfil no carro, ou no cinema, e queria dizer que devíamos mudar algumas coisas sem nunca ter sido capaz.
É isso mesmo, vou arranjar um emprego. Desta vez a sério. E não como as tentativas sem resultado que se assemelham aos esforços inúteis que faço nos sonhos.
- Pagaste uma hora, tens a certeza que não queres que te faça mais nada?
- Se pudesses levar para baixo essas garrafas vazias...
- Tás a gozar comigo?
- Desculpa queres sentar-te falamos um bocadinho...
- Acho que não, vou andando.
Joaquim
I ain’t lying, but I would if I could get it no other way with you.
Wild Bill
Protótipo
- Sente-se bem?
- Sinto-me com as costas direitas contra o espaldar da cadeira e as pernas formando um ângulo de 90º.
- E sente-se muito?
- Apenas quando tenho de me levantar frequentemente para ir abrir a porta.
- E sente-se quieto?
- Apenas se não tiver de abrir a porta.
Orlando Paiva Couceiro
O coleccionador de tristezas tem para a troca a alegria de nunca poder vir a acabar a colecção.
Orlando Paiva Couceiro
Porquê só por que sim, e dizer que é, que se tem, e tem-se, de facto, mas não chega, nunca chegou, e já partiu, porque é que não vens outra vez, outra vez não, era só aquilo, nem mais nem menos, mas não chegou, e por isso partiu.
Orlando Paiva Couceiro
Alejandro Sanz, At-Tambur, Ben Harper, Britney Spears, Charlie Brown Jr., Evanescence, Gilberto Gil, Metallica, Moonspell, Guns N'Roses, Incubus, Nguyên Lê, Ivete Sangalo, Mariza, Sepultura, Slipknot, Sting, Sugababes, Thierry Titi Robin, Trio Madeira Brasil, Xutos & Pontapés, Peter Gabriel, Rui Veloso.
Sting, Peter Gabriel, Rui Veloso, Xutos & Pontapés, Sepultura, Guns N'Roses e Metallica ficaram no século passado – devem-nos uma OD há uns bons dez anos -, Ben Harper tá cá quase todas as semanas, Britney Spears para um adulto é quase pedofilia, e o resto, salvo 2 ou 3 honrosas excepções, é muito fraco, muita pompa para pouca circunstância, muita parra e pouca uva. Anda um tótó à solta a fazer o line up? Só faltava o Phil Collins, os Delfins e o Luís Represas. Enfim, não serei eu com certeza o target desta festa.
Quer dizer, a Britney Spears...
Protótipo
Um quarto de hora antes da hora, no escritório a-futebolistico, larguei as últimas bocas benfiquistas, cínicas como se quer nestas alturas, e, tão convictas, que não poderiam ser de outra forma: “É claro que estou pelo patrocinador...” [Além do peso da História, também a Vodafone liga o Manchester-de-assinatura ao Benfica-pré-pago]; ou, agora em modo guerrilha “E com quem é que o Sporting joga?”.
Estava só.
Duque de Palmela fora, entretive-me numa prognose naturalmente desfavorável ao Porto, nunca à tangente, mas também não irrealista, que me levasse a pensar que nunca se realizaria, tornando aquele exercício uma especulação pueril (“Espero que ganhe infinitos mil a zero”) e não já um desejo, feito projecto de vida de curto prazo, uma quimera por volta das dez da noite. De gabardine e a fumar, entrava pela Bramcaamp como se atravessasse o relvado para me sentar no banco antes da contenda.
Em casa, já instalado no sofá-Archie-Bunker, tripla sandwich-com-todos, “Edith, get me another beer” e estão decorridos 10 minutos...Seguramente, só terei perdido a prosa poética do repórter de pista, o nosso homem junto ao relvado: “neste fim de tarde, princípio de noite, aqui, na Invicta, uma ténue mas visível camada de nevoeiro atravessa as bancadas do palco daquela que se espera, e quer, seja mais uma noite de glória para o único, e crónico, representante português na Liga dos Campeões, envolvendo o Estádio do Dragão, engalanado e vestido a rigor para esta estreia em noites europeias, numa atmosfera de misticismo, como se o dragão, esse símbolo do imaginário portista, também tivesse respondido à chamada e dito ‘Presente’”.
O Manchester marca and then there was much rejoicing... A coisa parece encaminhada, mas mesmo assim “cabrões dos tripeiros são fodidos, este Mourinho é fodido, o caralho do estádio até é louco, foda-se o gajo é mesmo irritante, porra Fernão já vamos à rua”, e lá marcam “cabrão do preto, fizeram-lhe bem as putas em Vigo”. Acto contínuo, faço a vontade ao animal e já só regresso para os “segundos 45”.
Chiça! (obrigado...), os gajos já parecem o Benfica, que banho de bola, o Nistelrooy parece o Nuno Gomes (cabeleira ondulante incluida), e, olha, olha, mais um table-dance para McCarthy. Bom, já agora vejo até ao fim, também, agora é que ninguém os cala, coitados, é mau, até jogam bem...porra, estás parvo?, a vacilar?, “Edith, where’s my beer?” .
Podia ser pior, podia ter sido a final. Ainda assim, haverá festa e muita gritaria com o verbo ganhar mal conjugado no pretérito, o sempre mui exasperante “Gânhâmos”, pela boca da Fátima Campos Ferreira. Se ao menos soubessem...
Orlando Paiva Couceiro
Tendências iconoclastas levam-me desta vez a um tema que me é caro: a festa.
Cada festa serve os seus propósitos, tratando-nos como fantoches que se comportam diferentemente, em função da época do ano. Sentimos a necessidade de mudar de vida no aniversário e na passagem de ano, no carnaval experimentamos novas identidades, no natal sentimos compaixão e altruísmo, soltamos a franga à sexta-feira, nas férias e nos feriados, e por aí fora. Autênticos fantoches que riem e choram quando lhes é pedido.
Embora pretendendo induzir estados d’ alma bacanos, subconscientemente, a festa acaba por induzir a delimitação temporal do sentimento, na medida em que está reservada para as alturas em que há, ou em que pode haver ... festa. Assim, é ela própria um símbolo imposto pela cultura aburguesada que herdámos sem ousar pôr em causa. Um escape. A simbologia controla-nos a este ponto, até na festa, até na nossa (suposta?) irreverência.
Toma lá o doce e vai partir pedra 40 horas por semana.
Protótipo
A confirmar-se o romance entre João Vieira Spitz e Marisa Kilómetros Cruz, espera-se uma segunda volta em grande do menino d'oiro, que pode voltar a atirar-se para a piscina sem perigo de lesões e sem que lhe faltem bóias onde se agarrar.
Orlando Paiva Couceiro
Será uma non issue. Talvez. Hoje em dia, perante a igualdade de direitos e quando o homem já vai para a cozinha, fará sentido tratar a mulheres como antigamente? Pagar jantares, levantarmo-nos quando chegam à mesa, deixá-las passar primeiro, dar-lhes o melhor lugar e todo esse protocolo será obsoleto quando elas são, de facto, “iguais” a nós? Não, diriam as feministas com a carótida inchada, não faz sentido. Na minha opinião, desde que não sejam a contrapartida para um machismo sem sentido, não vejo porque não havemos de tratar as mulheres com todo carinho e mordomia... um bom fellatio vale isso tudo e muito mais.
Derek Foreal
Os smartie's são Smarts com injecção electrónica?
Orlando Paiva Couceiro (a bater no fundo)
Um preço que suba rapidamente é uma pressa?
Orlando Paiva Couceiro (defying Anonymous)
Quando morrer quero que o meu cadáver seja lançado no espaço, onde andará anos em órbita, até reentrar na atmosfera como uma estrela cadente.
Protótipo
Enfrento o estado lastimável do meu portátil e do meu telemóvel recentemente adquiridos e vêem-me à cabeça as palavras de William S. Burroughs no On the Road de Jack Kerouac, de 1955:
"- Quando tiver retirado os pregos todos, vou fazer uma prateleira que irá durar mil anos!
- Já reparaste, Sal, que as prateleiras que eles fazem actualmente abrem rachas ao fim de seis meses, ou desabam de uma maneira geral? Acontece a mesma coisa com as casas, a mesma coisa com as roupas. Estes sacanas inventaram as matérias plásticas com que podiam construir casas que durassem eternamente. E pneus. O americanos matam-se aos milhares todos os anos por causa de pneus de borracha defeituosos que aquecem na estrada e rebentam. Podiam fabricar pneus que não rebentassem. Passa-se a mesma coisa com a pasta de dentes. Há uma certa goma, que eles inventaram e não mostram a ninguém, que se a mascarmos em miúdos, nem uma cárie temos até ao fim da vida. É a mesma coisa com as roupas. Podem fabricar roupas que duram para sempre. Preferem fabricar artigos ordinários por forma a que toda a gente seja obrigada a trabalhar e a picar relógios de ponto e a organizar-se em sindicatos sinistros e a debater-se com dificuldade enquanto o grande saque continua em Washington e Moscovo.
Levantou o grande pedaço de madeira.
- Não achas que isto vai dar para fazer uma fantástica prateleira?"
Protótipo
O mundo tá de pernas para o ar. Perplexo, verifico que representantes de associações feministas têm estado presentes nas manifestações contra a (perigosa) lei que proíbe a utilização do véu. Proíbam as mulheres de fazer o jantar, e qualquer dia temos feministas a exigir que elas vão para cozinha.
E não, não sou um porco machista.
Protótipo
Querido Diário,
Sonhei que tinha ganho a maratona, mas fartei-me de suar. Terei tido um sonho húmido?
Orlando Paiva Couceiro
Enquanto a Itália teve um Mussolini, um gajo bruto com ar de assassino, a Alemanha um Hitler, dos maiores criminosos da história, a Rússia teve o Stalin e a China um Mao - todos gajos carismáticos, fodidos, de carótida inchada -, nós tivemos uma ditadura presidida por um gajo com ar de frouxo e com voz de avózinha, que ainda por cima teve perto de 40 anos no poder e só foi c’ os porcos porque caiu da cadeira. Corolário: os democratas Portugueses dos anos 40 a 70 eram uns conas do caralho.
Protótipo
(Excerto da inquirição de Bill Gates perante o Antitrust Committee)
- So what is your point, Mr. Gates?
- It's all about power, Your Honour.
- Aah, Powerpoint, you mean?
- Precisely.
Orlando Paiva Couceiro (às voltas com uma apresentação)
Seria inacreditável, não fosse verdade. A ministra da saúde e o presidente da África do Sul afirmaram reiteradamente que uma dieta de alho, azeite e sumo de limão ajuda a combater os efeitos da sida. Criminoso em qualquer parte do mundo, num país onde há 4.740.000 pessoas infectadas com o vírus, é assustador.
Protótipo
não deixa de surpreender. Numa entrevista ao telejornal em que começa por violar ostensivamente o segredo de justiça e o segredo profissional ao enunciar as razões pelas quais discorda do despacho do Teixeira que mantém a prisão preventiva, anuncia que vai pedir à Ordem a desvinculação do segredo profissional para que possa apresentar publicamente as contraprovas da defesa, para, em seguida, e com lágrimas nos olhos, voltar a violar os deveres de segredo ao elaborar demoradamente sobre uma das contraprovas da defesa, designadamente, sobre o facto de o Carlos não poder ter estado em Elvas quando os registos das antenas de telemóvel demonstram que estava em Lisboa.
Ou seja, depois de violar o segredo de justiça e o segredo profissional, anuncia que vai pedir a desvinculação do segredo profissional, para, tudo em acto continuo, voltar a violar os referidos deveres de segredo. Tudo isto na cara de milhões de espectadores desta república das bananas que tudo proibe para tudo permitir e perante o silêncio da Ordem dos Advogados que tem o dever de o punir.
Protótipo
“Carta a Ana Olímpia, Paris, Dezembro de 1872
Minha doce Princesa,
É Dezembro em Paris. Era já Dezembro quando parti de Luanda deixando para trás o esplendor do teu olhar. E há-de ainda ser Dezembro depois que terminar o mês, e a seguir virá Dezembro e o inverno, e novamente Dezembro e sempre assim, até que de novo eu retorne à Estação do Sol, que é em toda a parte todo o instante que o teu olhar ilumina.
(...)”José Eduardo Agualusa, Nação Crioula
Protótipo
Ontem foi dentro o chamado "Bin Laden Português" ou "Bin Laden das Beiras". Chamam-lhe Bin Laden porque explodia umas cenas e estava escondido na Serra da Estrela. De resto, as aparências entre este e o verdadeiro Bin Laden são nulas. Este burgesso que foi catado porque lhe explodiu a mota (?), não chegou a matar ninguém, foi defendido por uma advogada oficiosa e apanhou uns módicos 11 anos de prisão. O sensacionalismo não tem limites. O homem deve ter apanhado mais uns dois ou três aninhos só à pala do epíteto. Qualquer dia temos o "Al Capone da Damaia", que apanha vinte por assaltar uma loja de conveniência para dar um caldo. Tenham dó.
É caso para dizer que até no crime somos pouco competitivos.
Protótipo
Como se não fosse suficiente o Carnaval em Fevereiro - salvo os desmandos de D. Gregório quando postergam o evento o mês seguinte do calendário - ainda nos sobra o inenarrável Dia de S. Valentim.
Nunca fui muito valentino, seja porque "começávamos" a seguir ao Dia V e entretanto "acabávamos", "rompíamos" e logo surgiam as maiores especulações sobre as nossas capacidades de locomoção - "Coitados, eles já não "andam" - seja, ainda, porque quase sempre foram escolhidas a dedo, e, passado o teste de saberem estar sentadas à mesa, vinha a revelação que também não estavam muito viradas para semelhante comemoração kitsch.
De facto, a coisa é kitsch, pirosa, pires, foleira e sem sentido.
Para quê assinalar comemorativamente um estado que, por natureza, é transitório ou provisório, mesmo se até já existem alianças de namorados, daquelas fininhas, de pechisbeque, que não têm o contraste do ouro, mas que qualquer molar logra estampar, de forma indelével. A não ser que se caia no rídiculo que já se assiste actualmente, de incluir como elegíveis valentinos os unidos de facto e até os próprios casados! Parece que é preciso um impulso externo para os tirar do marasmo em que se deixaram cair, em que já nem o "dói-me a cabeça" serve de paliativo; apaga-se a luz, e pronto, "até amanhã, mais um dia para a reforma e... que coisa, só pensas nisso, é por isso que gostas de mim?".
O pior é que tal impulso externo, qual Brísida Vaz vicentina ou, mais recentemente, Júlio Machado Vaz em deslize pelo sofá na NTV, o mais que consegue é...uma compra.
Ele é um perfume, um ursinho de pelúcia de tacto agreste e ultra-inflamável, umas Calvin Klein em que o elástico é sugado pela proeminência da barriga do calvino, que-isto-de-passar-o-dia-sentado-não-perdoa, a lingerie, supostamente sensual que, de boa vontade e para não ferir susceptibilidades, tem um número abaixo do que devia e "olha, isso era um fio dental, mas não vejo fio nenhum..." ou o DVD da inaugaração do Estádio da Luz para visionar a seguir ao jantar.
O jantar. A sofisticação da luz das velas, colocadas ad-hoc por um gerente de restaurante sem escrúpulos onde foram ao engano, a pressão de que este jantar tem de ser diferente porque estamos em comemoração, mas, porra, és a mesma pessoa com quem jantei ontem e já aí não tínhamos assunto, que merda, não havia nada mais caro, o que é que é carpaccio, tens a mania que és fina, olha ali aqueles, vê-se logo que andam há pouco tempo, foda-se que merda de imperial, não tem aí uns tremoços enquanto não vem o comer, não vou nada pedir vinho que fico com dores de cabeça e amanhã tenho de acordar cedo e por este preço compro uma caixa no DIA, podia trazer mais patê de sardinha, ... (silêncio, que estamos a comer), 'mor não queres trocar de lugar para eu ver a televisão, mas, lindo, também não se ouve, porra, pareces a tua mãe, quê?, não tem multibanco, 'mor dá-me aí que eu levanto já, desculpe nós não comemos as azeitonas, vá lá bebemos café no café, não, não pensei em mais nada de especial, quanto é uma rosa?, um euro, monhé dum cabrão, não, não disse nada, 'bora?, gostas de mim?, nunca mais janto aqui, depois no sábado vamos à discoteca, tá bem, mas sabes que não costumo usar perfurme, lá no "Toy Rus" havia do Nemo, mas estes Mischas dos Jogos Olímpicos de Moscovo '80 estavam em promoção, liga-me quando acordares, dá-me tu um toque que tou sem saldo e com jantares destes, rápido porque temos de mudar para a Linha Azul, a última sai às 23.17 do Colégio Militar, porra, mais gomas?, depois queixa-te que não se vê o fio, o David da Buraca tem sala para o copo d'água, o meu pai conhece um dos empregados, caguei para a música e para o coro, mas...olha, gostas mesmo de mim?, ai, 'pera, fiquei um bocadinho mal disposta com a picanha, então, baby?, ai, não sei acho que foi das imperiais, nunca me tinha acontecido, Mau!, olha, toca aí para sair, ó chefe abra atrás, olha, deixei a rosa na "caminete", Má!, amanhã podiamos ir ao Parque das Nações, há lá uns gelados óptimos, porra, só pensas em comer, e tu? só pensas naquilo...e é só pensar mesmo, porque de resto, nem vê-lo, tchau, ainda vou passar no café para ver a LC nova do Trocos, então ele vendeu a Aprília, iá, esta tem uma ponteira de escape Devil, gostas de mim?, gosto 'mor, amanhã passo em tua casa às 9, porque antes aí vou ao Mr. Clean lavar o carro, dividimos a gasolina, ok? Ok, lindo, como quiseres. Tchau lindo, tchau 'mor.
Casaram, tiveram dois filhos e o lindo nunca mais ofereceu flores ao 'mor. Vês o que fizeste, Valentim?
Orlando Paiva Couceiro
Se os homens não se medem aos palmos, por maioria de razão, as mulheres não se medirão às palmas.
Orlando Paiva Couceiro (featuring Raúl Solnado)
Com a democratização da era global, já todos podemos ser artistas e organizar um evento, uma performance ou um happening. Aprendi isso no sábado à noite, pelas 22 horas, na Galeria Zé dos Bois. Por 6 euros. Sem factura.
Enquadramento
A um canto da sala, pendia um fio do tecto com um gancho na ponta; no centro, dois pinos erigidos com rolos de papel higiénico, um com 8 rolos e outro, mais pequeno, com 3. Donde, 11 rolos de papel higiénico.
O Artista
A completar o cenário, o artista, o criador, mal aparentado, T-shirt com o "lettering" da Ford, com a inscrição Fuck (um genuíno iconoclasta!...), ar de quem não tem comido a sopa toda e muito menos visitado o dermatologista. Do seu timbre de voz não farei grandes comentários, pois não consta que tivesse aberto a boca. Já eu me fartei de bocejar... O bom destas coisas é que todos as podemos fazer em casa.
A Acção
Pino de 8 rolos:
Rolo n.º 1: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do pino (agora reduzido a 7 rolos), escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo. Ele deslizará em função da força daquele impacto; poderás escolher a trajectória, ora a direio, ora fazendo pequenas inflexões para um dos lados, sendo certo que, por cada rolo, necessitarás de repetir este movimento cerca de 4 a 5 vezes, para uma sala de 50 m2. Tem atenção que, à medida que fores desenrolando o rolo, deves fazê-lo de forma a que, no chão, se vá formando a imagem de uma estrela com 8 pontas, não devendo, EM CASO ALGUM, pisar nos braços da estrela que entretanto vão ficando desenrolados. Igualmente, não deverás pronunciar qualquer palavra, a respiração deverá ser levemente ofegante e não trocarás olhares com ninguém que esteja a assistir, devendo, mesmo, ignorá-los;
Rolo n.º 2: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do pino (agora reduzido a 6 rolos), escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo;
Rolo n.º 3: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do pino (agora reduzido a 5 rolos), escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo;
Rolo n.º 4: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do pino (agora reduzido a 4 rolos), escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo;
Rolo n.º 5: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do pino (agora reduzido a 3 rolos), escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo;
Rolo n.º 6: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do pino (agora reduzido a 2 rolos), escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo.
Rolo n.º 7: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, dentro do rolo que sobre do pino inicialmente com 8 rolos, escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo;
Rolo n.º 8: pega no rolo da base do pino, descola a ponta de papel do início do rolo, amachuca-a, coloca-a, com indiferença, no bolso das calças não engomadas há 2 meses, escolhe um canto da sala, agacha-te, deita o rolo no chão, concentra-te, esfrega a palma das mãos nas coxas, olha em redor e, subtilmente, imprime movimento ao rolo.
Nota: Cada rolo, já sem papel, deverá ser colocado numa das pontas da estrela, à escolha.
Pino de 3 rolos
Rolo n.º 1 (n.º 9 no acumulado): pega no rolo da base, descola a ponta de papel do início do rolo, coloca-a dentro do pino (agora com 2 rolos), levanta o pé esquerdo do chão, por forma a que a perna faça um ângulo de 90º, e começa a enrolar o rolo pela perna, passando depois para a cintura;
Rolo n.º 2 (n.º 10 no acumulado): pega no rolo da base, descola a ponta de papel do início do rolo, coloca-a dentro do rolo remanescente, e repete o procedimento do rolo n.º 1 (n.º 9 no acumulado), para a perna direita, e subindo para o tronco, cruza em V nas costas. Podes inicar o processo de cobertura da cabeça;
Rolo n.º 3 (n.º 11 no acumulado):prossegue pela cabeça, até ficares totalmente coberto de papel.
Deverás ignorar os risinhos do público, os suspiros de enfado, não cruzar o olhar com os olhares de incredulidade desses ignaros, bem como não fazer caso da gritaria na rua de quem escolheu realizar a performance no Bairro Alto num sábado à noite e que tolhe o silêncio que se faz sentir na sala há 45 minutos.
Ascensão da estrela:pega nas pontas da estrela entretanto formada, junta-as, puxa a ponta do fio pendente do tecto e enrola a bola de papel resultante da união das pontas da estrela. Recorrendo a um sistema simples de roldana, puxa o fio até que do chão se começem a soerguer os braços da estrela e enrola a ponta do fim num prego previamente martelado num dos cantos da sala. Apaga a luz e inclina ligeiramente o tronco para o público, assinalando o final do evento. Atenção: não deverás, em caso algum, alterar a expressão facial de ausência e vazio.
O espectáculo ter-se-á chamado "O melhor de dois mundos", és o Gustavo Sumpta e eu sobrevivi.
Orlando Paiva Couceiro
Irritam-me as pessoas que não gostam de domingos. Será que não percebem que o domingo é como um outro dia qualquer, em que ainda por cima não se trabalha?
Irritam-me aqueles palermas egocêntricos que dizem não ir ao estádio porque sempre que vão a equipa perde. Como se o mundo rodasse à volta deles.
Irrita-me o facto de ser dextro, de ter partido o rádio da mão direita e a consequente perda de mobilidade que isso implica (e.g. limpar o cu com a mão esquerda não dá jeito nenhum).
Irrita-me o facto de ter pedido 4 minutos de vida a - passo a redundância - ouvir o Fernando Seara dizer banalidades.
Irrita-me o cabelo do Simão.
Irrita-me o facto de não ter tido companhia para ver o Lost in Translation.
Irrita-me estar irritado e não ter mais nada com que me irritar.
Protótipo
Num tasco de uma rua de Genève escolhido pela pressa chamado “Peniche”, sentavam-se, entre outros, Sportiguistas e Portistas fixados no jogo, Benfiquistas a curtir o sofrimento alheio e Brasileiros, que se batiam às empregadas do balcão azul-piscina, indiferentes ao jogo do título projectado no écran gigante. Via-se, sofria-se, ria-se, comia-se e bebia-se naquele boteco dito – por outros - ”popullaire”. Aí, nesse momento, e mais do que a língua ou outra coisa qualquer, a Super Bock e o futebol eram o que nos separava dos outros. No entanto, ecumenicamente – e porque não havia Famous ou Jameson -, não deixei de dar um saltinho no Ballantines.
Protótipo
Aeroporto. Passo no raio-x e mandam-me tirar os sapatos, ficando sem conseguir descortinar qual o critério que presidiu à escolha da peça de roupa. Ainda bem que não vinha de botas. Mas a Portugalidade logo tomou posse do processo. Passado o último check-point, pergunto: - Ainda dá para fumar um cigarro? – ao que o gajo responde: - Não, é melhor ir descendo as escadas, mas pode fumar lá em baixo, enquanto o autocarro não parte, a gente finge que não vê...
É lindo!, e para os puritanos que acham que não, remeto-os para a Clara Ferreia Alves do Expresso deste fim-de-semana.
Protótipo
- What's your Nick, name?
Orlando Paiva Couceiro (featuring Badaró)
Por favor perdoem-me a mistura de José Mourinho, filho de Félix Mourinho, com Eugénio de Andrade, citado por Paiva Couceiro alguma linhas abaixo.
Mas é que eu próprio fui atingido por um fragmento da bolha de arrogância que explodiu sábado à noite no Verdum XXI, e isto, mesmo já à muito suspeitando, que Mourinho não passava de uma versão refinada de Otávio - que currículo é que tem o Mourinho??? Pena que o Paulinho não lhe tenha ido aos cornos.
Longe longe longe - as palavras têm algo que me embala, tenho ouvido-as para adormecer. Será que o Pápa e porque não o FCP inteiro também podem ir para longe longe longe. Todos. Só lá deixava ficar o Emplastro.
Pena que ninguém nunca lhes tenha ido aos cornos
Vasco
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Orlando Paiva Couceiro reproduz Eugénio d'Andrade
Se, num concurso público, uma empresa comprar um Presidente de Câmara, este passa a ser um político no activo?
Orlando Paiva Couceiro
Fui ao jardim da Celeste
Giroflé, giroflá,
(2x), flé, flá
O que foste lá fazer?
Giroflé, giroflá
(2x), flé, flá
Fui lá reter na fonte,
Giroflé, giroflá
(2x), flé, flá
Para quem é a retenção?
Giroflé, giroflá
(2x), flé, flá
É p'ra menina 'Nela
Giroflé, giroflá
(2x), flé, flá
Não devia ser para a Previdência?
Giroflé, giroflá
(2x), flé, flá
O Bagão faz o mesmo,
Giroflé, giroflá
(2x), flé, flá
Orlando Paiva Couceiro
Se no outro dia me sentia blogueado e não conseguia escrever nada de jeito, já hoje me invade uma profunda petulância.
Estando na fase terminal da digestão do almoço, se escrever agora estarei a arrotar posts de pescada?
Orlando Paiva Couceiro
O jogador caiu feherido de morte, sem sequer ter tocado no esféherico.
Orlando Paiva Couceiro
Bons olhos te vejam, bons ouvidos te oiçam e, já agora, venham de lá esses ossos, o que decerto farás com uma perna às costas, mesmo que isso te aborreça até à ponta dos cabelos, sim, da cabeça aos pés, darás a mão à palmatória, isto se não preferires dar-me aqui uma mão, a mim que ando com a cabeça às voltas, de tal forma que não prego olho, sempre de pestana aberta, a pensar, porque as coisas não são assim, do pé para a mão, mesmo sabendo que não tens estômago para isso, nem parece que tens costela de onde tens, como o teu pai, que de unhas de fome não tinha nada, ainda que estivesse sempre a pôr o nariz em tudo, a querer o braço todo, mas pelo menos tinha dois dedos de testa, às vezes desconfiado, com a pulga atrás da orelha, outras impulsivo, com pêlo na venta, sempre que lhe pisavam os calos, mordiam as canelas ou até quando não gostava do almoço que a mulher lhe servia, essa sim, uma boca santa, um coração sem tamanho, ponderada, com os pés assentes na terra e de pulso firme quando era preciso, mas sem rancores, atirava tudo para trás das costas.
É caso para dizer: este post não vale um cú.
Orlando Paiva Couceiro
As mulheres são a melhor coisa do Mundo, ainda que o mundo das mulheres não seja o melhor do Mundo em que as mulheres são a melhor coisa.
Não se pode ter o melhor de dois Mundos. O melhor é optar. Há quem o faça para ser o melhor do Mundo; eu só quero ser o melhor da minha mulher; neste Mundo, do qual ela é a melhor.
Orlando Paiva Couceiro
- Arrependemo-nos muitas vezes de decisões tomadas, vivendo na amargura da desilusão. Fazemos merda e vivemos angustiados com isso. A tal moral retroactiva. Duplo erro.
Há é que estar com a pestana aberta - aware -, consciente de que a vida é feita de encruzilhadas fodidas de reconhecer, que muitas delas formatam o caminho da nossa vida e que, nalguns casos, não há retorno.
O que passou, passou. No futuro, substitua-se a amargura pela tentativa de reconhecer as tais encruzilhadas. E pela consciência de que a opção que aí tomarmos definirá o nosso caminho. Tudo isto para que o balanço não seja realizado antes de se esticar o pernil.
- Vai dizer isso aos bacanos que apanham o sabão em Caxias pelos próximos 20 anos.
Protótipo, a.k.a., Preacher Man's Preacher
De entre os muitos critérios e classificações que me permitem dividir e sub-dividir “a coisa” mais bela do universo conhecido - a mulher -, há um sobre o qual vos quero falar. Apesar do título, descansem, pois não vos falo de transexuais - falo-vos de um tipo de mulher, do tipo que mais gosto.
Antes de mais permitam-me os estereótipos - apesar de polidos com alguma subjectividade - e alguma terminologia manifestamente pouco feliz. Na minha opinião, e em termos de “onda”, há dois tipos de mulher: um que amplifica as qualidades e defeitos ditos típicos do sexo feminino - intriguista, manipuladora e sei lá mais quê, porque não estou numa de exemplificar. É aquele tipo de mulher que deve vir de Vénus, a que chamo de “mulher-mulher”. Aquela que não passa além do tesão. Depois há o outro tipo, a que chamo de “mulher-homem”, que, sem prejuízo do seu lado feminino, tempera as características típicas das mulheres - de que tanto gostamos - com o bom senso dito típico do sexo masculino. Não passam a vida em joguinhos manipuladores e intriguistas, são mulheres com quem se pode ter dois ou três dedos de conversa bacana sem que seja sobre filhos e casamentos e para quem até uma boa caralhada é bem vinda, desde que a propósito. São aquelas, poucas, que incluis na mail list quando mandas mensagens que, doutro modo - e porque estás neste país conservador -, enviarias só para homens. ‘Cause they can take it. All in a nut shell - dá para estar com elas na boa.
Dito isto, também os homens deviam aprender com as mulheres, porque, apesar de achar que há obviamente diferenças a manter – tal como diz, e bem, este gajo – “sou pelo cruzamento intelectual e ideológico dos dois sexos”.
Protótipo
... o motor do carro ainda está quente. Chove. Descanso, prostrado na cadeira, ainda suado, por ¼ de hora. Fecho os olhos. Pela primeira vez nas últimas 48 horas, trabalho, desporto, noites, gajas, sexo e drogas largam-me por um instante. Indiferentes na sua estoicidade, os músculos dos meus maxilares não me deixarão dormir, obrigando-me a sentar à mesa com a vida por breves instantes, como a criança que presta satisfações à senhora sua mãe. Hesito por um milionésimo, sabendo que tenho de puxar os freios da locomotiva hedonística.
Mas hoje é sexta, e as francesas, resolutas, jamais prescindirão.
Derek Foreal
Turkmenbashi é o nome daquele que é, desde 1991, o ditador do Turcomenistão (estado entre o Afeganistão e o Irão) e, sem dúvida, o bacano com o culto de personalidade – passo o pleonasmo - mais megalómano de que já ouvi falar.
Para além ter o retrato em cada esquina, em embalagens de chá e de vodka, no dinheiro e como ícone da TV estatal, o bacano decretou – imagine-se - que os meses de Janeiro, Abril e Setembro passassem a ter o seu nome, o nome da mãe e do seu livro preferido. Decidiu ainda que lá no sítio se é adolescente até aos 25 anos, e proibiu, em nome dos bons costumes, o ballet, a ópera e o circo (?).
Á granda Turkmenbashi!
Protótipo
Hoje não serei corrosivo, pretencioso, maldicente, cruel, negativo, pessimista, cínico, abrupto ou reaccionário.
Estreia do Ballet Gulbenkian. Duas coreografias, um intervalo.
Primeira: Delicada
12 bailarinas, som electro-industrial, cores digitais.
Dez primeiros minutos literalmente arrepiantes: a expressão corporal, a cadência, sei lá que mais, deixei-me ir.
A continuação e o final, de corpos entrelaçados, levemente sensual, não foram tão conseguidos. Aplausos, sem euforias.
Intervalo:
Nicotina. Casa-de-banho. Os inenarráveis Jimmy, David Simões e apêndice de laca no cabelo esgotam os espelhos, trejeito para aqui, melena para ali, sempre em trio. Podia dedicar-lhes um post, mas teria de apagar o primeiro parágrafo.
Segunda: Branco
10 bailarinos, 4 acordeonistas (Danças Ocultas), tapete branco.
Arrepio. Lágrimas contidas. Aplauso estrondoso, longo e em pé.
Sublime!
Já nada de mau podia acontecer no resto da noite. Como não correu; antes pelo contrário.
Orlando Paiva Couceiro
Domingo passado via o Fernando Santos a comentar o jogo do meu clube e pensava - Este gajo tem um tique irritante p'a caralho...
Como é óbvio, ninguém gosta de ser dominado por gestos pouco estéticos. Ninguém gosta de ter tiques.
Tiques há-os para todos os gostos. Piscar os olhos continuamente, espasmos no maxilar inferior à Fernando Santos, abanar a cabeça, contracções involuntárias na cara, escarrar a torto e a direito, coçar as sobrancelhas, pentear o cabelo à Guterres, sacudir os ombros, coçar os bofes e muitos mais. (já para não falar dos tiques à roto, quando não se é roto)
O pessoal costuma achar esquisito, mas nem chega a dar importância - desde que a cena não chegue ao ponto de um gajo que andou comigo na escola, que tinha todos dos acima referidos, e compulsivamente -, o tique é visto como uma cena normal. Uma inevitabilidade.
Mas não é bem assim. É que a ciência demonstra que os tiques são uma compensação do organismo face a um qualquer trauma emocional. Basicamente, se tens um trauma qualquer podes passar a coçar o bofs de cinco em cinco minutos.
Cura lá esse trauma, ó Fernando.
Protótipo
Se o bitakes fosse o blog mais visitado, tal facto
faria dele um blogbuster?
Orlando Paiva Couceiro
Numa destas quintas-feiras à noite de suave alcoolémia, vi de Repente…Sim, na parede urinol-cinzeiro oposta à montra da galeria de aves raras - e outras nem tanto - do Senhor Lee, em amparo de queda iminente e-lá-se-ia-o-vodka-Joy-maçã-reineta-acidez-gástrica (porque é que insistem em poupar 20 cêntimos e não compram Trinaranjus “mild and classic” ??), fui salvo pela cola industrial, ainda fresca, e abundantemente aplicada, do cartaz que anunciava o espectáculo. De repente. Hospital Miguel Bombarda. É teatro, é cultura, vou desbundar.
Com sexta-feira de permeio, e um sono retemperador, estava pronto para a contenda. Reserva de bilhetes, comme il faut, desafio o Securitas: bem sei que estou num hospital, mas…onde é a peça?, o auditório?, a sala-estúdio? Nada disso: é à esquerda, à direita, sempre em frente e…barracão, anexo, tulha, depósito…Mas é aqui. “Boa noite, pode-se?...”
Não éramos mais de 20, actores incluídos. Qual VIP no paddock do Grande Prémio, sem meninas da Marlboro, antes meninas que gostavam de não o ser, ou pelo menos assim o parecia, fumei a compasso com a angústia da protagonista antes da representação, ouvi outra – seria a encenadora ou familiar da anterior – dizer “ai, não me ponhas mais nervosa”…De repente.
De repente, eu e quem me acompanhava - que não queria que fosse outra que não aquela - se espojados no sofá lounge, parte do cenário, estávamos longe dos olhares e intenções dos outros 18, uns outsiders, os under-dog, a vaga de fundo (e de fungo, tal era a epistaxis invernal que nos acometia). Determinados, mas discretos, ficámos pela 3ª fila, toda para nós. Nervoso miudinho, luzes em fade out, e vai começar. Assim parecia. Não, afinal, já começou mesmo. Pelo menos, estão todos calados e circunspectos nas duas filas da frente. Mas os actores também: no palco, ao nosso nível – porque isto da cultura é para todos – duas actrizes, genuinamente desinteressantes para qualquer homem que se preze, abraçam-se no chão e segredam, balbuciam, mas nada sabemos do que se trata. Passaram 3 minutos; já não falta tudo.
(e como está frio na sala!... daí os abraços, penso.)
Enquanto pensava, da fila da frente salta um dos actores, esquálido, transmontano importado para a capital, magro, sem cintura, de olhos perdidos nas traves de madeira do tecto que suportam a telha vã que, por sua vez, torna o frio ainda mais insuportável (pelo menos para mim, de camisa trendy mas desapertada à marialva urbano-fadista).
“The singularity of being contemporary…”
Pára, por favor!, mas já não contemos o riso, não sei se foi a tensão do silêncio que antecedeu a frase-manifesto, se a figura do manifestante…Gargalhada! Pré-sufoco…Volto vinte anos atrás, quando ríamos precisamente quando não podíamos ou não devíamos, quando a stôra nos repreendia, na homília do velório, à mesa…
Ou quando os 18 se viram para trás, para os outsiders que não percebem nada disto, que não são contemporâneos nem pós-modernos, mas que vão tendo poder de compra e aparecem. Estava dado o mote.
No final, e que final!, saímos pela esquerda-baixa, fomos à nossa vidinha…Às três da manhã pensámos em telefonar ao transmontano (com quem reservara os bilhetes), mas “give the man a break”.
Ainda assim, recomenda-se. Nuno Bragança escreveu a “A Noite e o Riso”, eles, os insiders, adaptaram o texto, estórias de copos, “pintarolas”, bôites e solidão.
Foi à noite e ri-me.
Orlando Paiva Couceiro
A única verdade que deve existir na minha vida é não gostar dela. Nunca gostei. Sempre gostei de mim, tirando uma ou outra depressão, um ou outro compungimento, alguns erros. Mas nunca gostei da minha vida. Nunca sequer pensei em expô-la, por não gostar dela, mas sobretudo porque seria desmascarado, e embora haja muitos mentirosos nem estes me perdoariam a vida postiça. Não é bem mentir, é mais imaginar. É uma espécie de desassossego que exige superioridade, que me impõe excesso, que me convence de distinção. Devia ter uma vida de origem demarcada. Uma espécie de desassossego ainda mais rápido que uma mentira, tão exigente a qualquer minuto a que não esteja completamente sozinho, e para estar completamente sozinho ninguém me pode ouvir, ver, nem sequer imaginar. Por isso é complicado estar realmente só quando há sempre alguém a lembrar-se de nós, seja como o meu neto coitado não tem culpa nenhuma, o cretino que me persegue desde o liceu, ou o tipo antipático que não me cumprimenta quando lhe abro a cancela do Porto de Lisboa, sabes quem é sabes, aquele gajo que até nem parecia nada parvo mas que nunca quis trabalhar, tinha a mania que era filósofo. No meu corpo há mais mentiras que glóbulos e uma análise à velocidade de sedimentação mostraria tudo em suspenso. E de maneira que é complicado viver quando se é e não se quer ser o neto coitado, o cretino apaixonado, ou o tipo antipático que não cumprimenta ninguém (sempre me fez confusão cumprimentar pessoas quando não sei ao certo o que pensam de mim) quando lhe abrem a cancela do Porto de Lisboa, sabem quem é sabem, aquele gajo que para aí vem falar com as gaivotas, sim, aquele gajo que até nem parecia nada parvo mas que nunca quis trabalhar, tem a mania que é filósofo. E como cada vez mais sou o que não quero ser minto. Oleio o tempo, ponho uma almofada na vida e as coisas até se tornam suportáveis. Até a vida me deixa de bater com ela às vezes. Às vezes até acreditam que somos mesmos filósofos, que somos gajos corajosos, que lutamos pela nossa vida, que não nos rendemos. Às vezes até eu acredito que consigo, e que toda a gente se vai calar quando pensar em mim, e que vou passar a cumprimentar toda a gente por que sei que me admiram.
A mentira e o tempo são a mesma coisa. Quando já não dá mais para olear o tempo, ou o paramos (que é o que ando a tentar fazer à anos visto que andar para trás é possível mas acaba por também se perder muito tempo e causa-me estranheza a ideia de ter trinta anos ainda com uma infância atravessada, ainda com aquela voz melíflua a impor-me demarcação, não bem voz, eco), ou o reinventamos, ou nos deixamos levar – e somos esmagados. Estou a começar a ser esmagado. O problema nesta vida de mentira não é, ao contrário do que se pensa, mentirmos tanto que a certa altura acreditamos nas nossas mentiras. Nisso só quem nunca mentiu de verdade é que acredita. Isso era óptimo, a mentira perfeita, tão perfeita que mesmo o mentiroso acreditasse nela, e quando digo acreditasse digo-o realmente, não como se acredita em sonhos ou possibilidades, não com camadas e camadas de mais mentiras a sedimentarem a mentira em que se quer acreditar. Refiro-me a embustes que não necessitem de patrocínio nem protecções. Dessas nunca encontrei nenhuma, por isso também não serei grande coisa como mentiroso. O problema em levarmos connosco uma vida que não nos pertence, é não encontrarmos a quem pertence. É como entrarmos numa casa que não é a nossa, gostamos, ficamos lá a viver e um dia queremos sair e não há porta, não há janelas, só andares e paredes e divisões e camadas e protecções e vozes, sabem quem é sabem, aquele gajo que agora não consegue sair daquela vida, nunca foi bom dos cornos e agora olha. O problema de sermos mentirosos é que um dia acordamos sem saber o que é mentira ou verdade, o que é que lá pusemos ou que já lá estava. Acreditar ou não nas minhas próprias invenções não é relevante. O que me perturba a relação com o tempo é acreditar ou não nas minhas próprias verdades. Assuntos à cerca dos quais nunca se mente, vão ficando tão bem arquivadinhos que depois é difícil encontrá-los. Há que organizar uma expedição extremamente fatigante, munidos de recordações dolorosas, porque se já não fossem dolorosas eram mentira, o que exige uma preparação que ainda não tenho, exige nervo, acerto, desabrimento. Assim, antes que o tempo me esmague, vou-me fechar do mundo que criei e só regresso à vida depois de queimar todo o esterco criativo que construi ao longo da vida, pelo menos grande parte dele senão arrisco-me a ficar com as memórias reduzidas a um puré de fragmentos susceptíveis de serem substituídos, sem que me aperceba, por uma outra mentira oportunista em forma de vírus, e uma consequente recaída noutra realidade alternativa construída de raiz, agora com muito mais experiência do que quando era uma criança – o que pode ser fatal. Vou ser delicado e rigoroso. Vou-me isolar no meu rés do chão, vomitar todas as vidas que tive até ao azedume, e remexer tudo. Por mais magro que fique serei eu, e como disse acima, sempre gostei de mim, apenas nunca gostei da minha vida.
Joaquim
Tal como a personagem do Woody Allen que tem peso na consciência de não ter peso na consciência, tenho medo de não ter medo, pena de não ter pena e de ser amado sem amar. Sinto na medida da minha impossibilidade de sentir, sou um ser de delays, de moral retroactiva.
Derek Foreal
No quarto de hotel em Ipanema, via no Telecine 3 o “Assalto ao Aranha-Céus”, legendado em Português. Às tantas, um bacano vira-se para o Bruce e diz:
“Bruce... you’ve got some balls...”
O que os brasucas legendaram da seguinte forma:
“Bruce... você tem uns colhões do caralho....”
Sem espinhas.
Protótipo
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Yvonne: Where were you last night?
Rick: That's so long ago, I don't remember.
Yvonne: Will I see you tonight?
Rick: I never make plans that far ahead.
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Captain Renault: What in heaven's name brought you to Casablanca?
Rick: My health. I came to Casablanca for the waters.
Captain Renault: The waters? What waters? We're in the desert.
Rick: I was misinformed.
Protótipo
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- O mundo está cada vez mais injusto. Todos reconhecem que tem de se mudar muita coisa. E no entanto, há gajos que se consideram conservadores. Confesso que não entendo. O mundo todo fodido e há gajos que são conservadores.
- Conservam o status quo.
- Status quê?
- Quo.
Protótipo
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O que é um gajo cool? Sabendo que, no sentido que lhe dou, a palavra cool não é traduzível para Português, e que não consigo defini-la, vou tentar resumir o que é isto de um gajo ser cool (não confundir com o tótó que passa a vida em ginásios, anda com roupa da moda e frequenta os sítios "mais in"):
1. Homem de opiniões moderadas, excepto quando as circunstâncias impõem que forje convicções revolucionárias, aceites naturalmente no circulo de amigos;
2. Grande sentido de humor. O gajo cool tem rugas à pala de tanto mostrar a favola. Até porque sem humor não se pode fazer rir uma mulher;
3. É um homem ecléctico, que dá importância ao corpo, ao intelecto e à espiritualidade. Curte música e literatura. Esta versatilidade faz com que esteja à cunfia num qualquer desporto, numa discussão sobre a nova ordem mundial ou no dance floor;
4. Apesar de chamar a atenção pela sua presença, um gajo cool tem uma atitude low profile, que lhe permite comprar ganza na Musga com a mesma discrição com que está na festa de anos da avó, no trabalho, ou numa festa bacana (o exemplo quer-se apenas ilustrativo, porque um gajo cool não fuma ganza da Musga, fuma pólen ou bolota);
5. Não olha a classes sociais - não é snob ou ressabiado - vê o homem pelo homem;
6. Um gajo cool tem colhões. É capaz de se mandar de cabeça à maioria injusta quando a consciência assim obriga, ou de pegar pelos cornos a gaja boa do recinto (aquela que faz mirrar os agriões ao resto do pessoal) logo que esta entra no seu campo de visão;
7. Não sendo casmurro, o gajo cool tem personalidade, só sendo influenciado por argumentos, costumes ou tradições que, depois de filtrados, aceita;
8. É open minded. Despido de preconceitos, um gajo cool nunca pode ser conservador. É um homem que - apoiado no passado – está virado para o futuro, com os olhos postos no horizonte, sempre pronto a aceitar novas ideias. E mete o avental, quando é preciso;
8. Não tem de ser bonito (alguém se lembra do Gainsburg?). É uma pessoa interessante, com ideias, com atitude. Características que lhe dão o carisma que esbanja;
9. Um gajo cool é um bom vivant. Gosta das coisas boas da vida, de se divertir, de comer e beber, de sair à noite. Experimenta, arrisca - estica sem partir o elástico;
10. E, acima de tudo, é um gajo bacano, amigo dos amigos.
Mas também é muito mais que isto.
É cool.
Protótipo
Memória futura
- Juiz: "1,2,3, diga lá outra vez...Pedrinho"
- C.C.: Pedrinho...Tó Jó...Cajó...Vitor...Sandro...Walter...
- Advogado: ...Esse temos factura...
C.C.: ...Vitor...
(Buzina do procurador)
- Juiz: Esse já disse!...
- C.C.: Manuela...
- Raquel (escutando atrás da porta): Eu sabia! Puta!
Orlando Paiva Couceiro
Pseudo
Entro como a brisa do mar num dia de calor - refrescante. Venho a propósito. O som entra mais fundo. As gajas passam-se, agitam-se. Alguém abre janelas de par em par.
Não me conhecendo bem, topam-me a pinta – sou o que querem ser. Esticam-se, projectam-se, qual cão de Pavlov, forjando novas aparências, alter egos com sorriso amarelo.
Não têm personalidade porque não estão bem consigo próprios, não dando valor ao irrepetível que são, inconscientes de que a diferença é o sal da vida. E quando vêem um gajo naturalmente cool, transformam-se na máscara que a ocasião obriga.
Se nem todos podem ser o que sou, todos podem ser o que são.
Derek Foreal
Miguel
Este post é dedicado a um gajo que tem um granda nível. O Miguel, porteiro do Lux. Simpático, pragmático e despido dos tiques autoritários que infelizmente reconhecemos nas bestas insufladas que filtram os clientes – e outras coisas mais - das Discos por esse mundo fora.
Um episódio chega para ilustrar o nível do homem. Estava eu, numa qualquer quinta-feira, a entrar no Lux vindo do Hot Club – onde tinha ido ver a Jacinta, grande promessa do Jazz Português. Como não tinha tido tempo para ir a casa mudar de roupa, estava com o fato escuro vestido e com a gravata despertada – com o nó desfeito -, à volta do pescoço. Cumprimentado o Miguel, preparo-me para entrar – em grande stile ;) -, quando o bacano me segreda o seguinte reparo:
- João, a gravata, quando está posta, é para estar com o “nó dado”, se ‘tás com a gravata assim, mais vale pô-la no bolso.
Não sabia o que dizer, ou o que pensar. Pareceu-me primeiro uma atitude paternalista sem nexo, ao que pensei responder com um - O que é que tens a ver com isso, caralho!? – antes de lhe balear os meniscos com dois tiros certeiros.
Depois cheguei à conclusão que o gajo é um senhor, e ponto final.
Protótipo
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Quote
Reparte comigo as tuas dores, que eu tenho coração para elas.
Orlando Paiva Couceiro cita C.C. Branco
Cenas de merda
Umas vezes é nice 'n easy. Outras, sai seco, duro, grosso e prolongado, parecendo que nos vai rebentar a cena toda – limpamos e, surpreendentemente, não há nada para limpar. Doutras, caganeira - gastamos meio rolo, e o cú quase em sangue. De qualquer maneira, quer seja a ler, a fumar, a pensar na vida, ou simplesmente a descarregar, cagar é sempre um alívio, e por vezes até um prazer. Quando cagas, és tu, sozinho com a revista, a vida e a merda...uma maravilha.
Casas-de-banho.... a de casa dos meus pais faz parte do meu imaginário infantil, é acolhedora e até convidativa - talvez por isso nunca tenha tido prisão de ventre. Nada melhor do que cagar na nossa casa-de-banho. Infelizmente, também temos de cagar nas casas-de-banho do escritório, ou as casas-de-banho públicas, mas não é a mesma coisa. Nessas, não estás à vontade, a coisa é rápida e a consciência higiénica obriga ao método do papel higiénico na borda da retrete.
E a retrete... esse objecto de natureza bizarramente porca e necessária. A alternativa à fossa. A minha, ergue-se do chão como - nas palavras de Kundera – uma flor branca de nenúfar.... No entanto, não deixa de ser um eufemismo para o fim dos canos-de-esgoto - essas auto-estradas de merda escondidas, que percorrem as nossas cidades. Por mais hipocritamente estética que seja a nossa retrete, por mais cómoda e aconchegada que seja a nossa casa de banho, o facto é que estes adornos não deixam de ser a longa manus dos milhões de canos-de-merda em que nos vemos necessariamente envolvidos. Uma cidade de tubos merda. Um dia gostaria de saber quantos kilómetros de tubos-de-esgoto percorrem Lisboa.
Retretes Sanita, já não as há. Dantes, quando um gajo cagava, a merda caía numa plataforma de louça, no interior da retrete. Hoje, antes de cagar, tenho de atirar papel higiénico para o fundo da retrete, pois, caso contrário, o cagalhão mergulha perpendicularmente na invariável poça de água e de mijo, e chapinha-me violentamente o cú.
Tanto ficou por dizer... sobre as leituras, os pensamentos, as casas de banho ecológicas, o bidé, as hemorróidas...
Cenas de merda, mas que não deixam de documentar os nossos tempos. Porque até a Lady Di largava (diariamente) o calhau.
Protótipo
Coerência
Qualificada como virtude que é normalmente tida como objectivo de vida, eu cá vejo a coerência de uma diferente perspectiva. Como a vida é curta, chego à conclusão que um gajo tem de se esticar para que a coisa valha pena. Para despentear situações, espevitar reacções.
Por isso, a meu ver, a atitude inteligente está em saber reconhecer as situações em que vale a pena não ser coerente. Caso contrário a vida seria previsível... e chata p’a caralho.
Protótipo
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Melancolia
Ouvi, no outro dia, Saramago dizer que o estado que melhor permite a criatividade é o melancólico. Deve ser por isso que os meus textos são apenas brilhantes.
Protótipo
Imperativo categórico (O.P.C. featuring Immanuel Kant)
Na passagem d'ano, não irás a festas de "revéillon", não participarás em corridas de S.Silvestre (mesmo se não houver quenianos naturalizados dinamarqueses), não te assomarás à janela de panela em punho e colher de pau em riste, não entrarás em coma alcoólica às duas da manhã, não comerás as passas de uma só vez, nem exibirás - mastigando de boca aberta - o espectáculo sórdido do bolo alimentar provocado pelo contacto com a saliva, não farás promessas que sabes não poder cumprir, não farás piadas do género "até pró ano" ou "já não te via desde o ano passado", não gravarás os programas televisivos de ano novo para ver no dia 2, não andarás durante o ano com expressões e/ou piadas recorrentes tiradas desses programas e, principalmente, não imitarás o Diácono Remédios, não irás ao Terreiro do Paço, muito menos se os Trovante actuarem, não alinharás com a intelligentzia que considera a Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz exploração infantil e o Sansão Coelho pedófilo, não enviarás sms's àspessoas só porque constam da agenda do telemóvel, não encobrirás a tua conduta e princípios éticos no manto acrítico e ligeiro da "euforia própria da época" e, sobretudo, não sejas feliz só porque é ano novo, mas não deixes de o ser se assim ele to proporcionar.
Orlando Paiva Couceiro
A montanha pariu um rato
Maria de Lourdes Tomás pariu Bruno Domingues. Bruno Domingues pariu Orlando Paiva Couceiro. Aquele gostava de escrever, queria escrever, mas só tinha aparo. Protótipo, se escasso nas ideias, sobrava-lhe no papiro, no que cedeu parte desse espólio a Orlando, entretanto investido na pena de Bruno. Este não negligenciou a dádiva, como tantas outras vezes fizera. Pensou, criou, escreveu, como sempre quisera e não pudera.
Protótipo achava que Orlando esbanjava a oportunidade: a montanha de Orlando paria ratos no seu papiro. Impacientava-se. Orlando agastava-se, mas não desistia.
Maria de Lourdes já só podia enfrentar gravidez de alto risco. E Bruno era irrepetível, logo, Orlando também. Os três resistem.
Paiva Couceiro fica. Aguenta-te, Protótipo.
Orlando Paiva Couceiro
Sinal dos tempos
Se há algo típico nos nossos tempos é a ausência de compromisso. À excepção da hipoteca, as novas gerações – o pessoal, portanto – não se comprometem.
Nestes tempos não casamos, temos “casos” – palavra que me irrita -, não sabemos o que fazemos ½ hora antes de sair à noite. Se a escolha está por todo o lado, para quê reduzir as alternativas?
O que é que fazes logo à noite? – perguntamos. – Não sei, logo se vê, vem ter ao Bairro. – E na passagem de ano? – sondamos. – Sei lá, há tantas alternativas...ainda não decidimos.
Sinal dos tempos.
É tudo fluído, dinâmico. E isso é bom. Mas compromissos, népia. Andamos ao sabor da maré. No deixa ver no que é que dá.
Protótipo, a.k.a Preacher Man
Bafons
Não entendo aqueles broncos que têm preconceitos contra os bichas. São pouco inteligentes. Não tenho nada contra gajos rotos, por razões óbvias (raramente uso esta palavra, mas neste caso parece-me adequada).
As vantagens dos rotos são de vária espécie. Em regra, e porque têm de justificar a sua opção, são mais inteligentes que os hetero; como não gostam de mulheres, diminuem a concorrência; e, como se não bastasse, normalmente andam com gajas óptimas. Por mim, até podia ser tudo roto. Seria um Marajá, no meio da eunucada.
Assim, um gajo que não gosta de rotos, só pode ser uma de duas. Ou é um pacóvio básico reaccionário p'a caralho, sem dois dedos de testa; ou é roto. Conclusão: - Venham eles, os rotos, e os gajos que não gostam de rotos.
Já quanto às lésbicas, e desde que sejam bi, acho que nenhum de nós se importa.
PS - Não abordei, por não pretender ser exaustivo e porque me iam foder a teoria supra exposta, dois tipos de rotos: (i) o homem bissexual; e (ii) o roto homem, agressivo e adepto do culturismo.
Protótipo
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Alvaláxia
Por entre arcadas e sobre-lojas de betão que hão-de ser uma galeria comercial, eis que entro no Espaço. Na Galáxia.
É Domingo, mas nem por isso ficou toda a gente a ver o Herman, célebre Humorista-Arguido cá do burgo.
Estou nas entranhas do Estádio, nos interstícios da Monumentalia Arquitectónica, mas é um centro comercial como outro qualquer onde, ou se vai ao cinema ou às compras (vide "Chover no Molhado", nesta página).
Como não chove, fico-me pela primeira. Procedimento habitual de bilheteira, boicote às pipocas e lá vanço pelo corredor, subo umas escadas, desço outras e, já desorientado, alcanço a sala. Não há arrumadores, porque hoje também não havia jogo nem apanha-bolas, o que me trouxe liberdade de escolha do assento da nave. Meia casa, como se diz, e descolamos.
Imaginava uma plateia de reformados, daqueles que diaria e quotidianamente assistem aos treinos, convivem no café do clube a dissecar a triologia da imprensa diária desportiva (um verdadeiro case-study do mercado editorial à escala planetária). Mas não; estou num centro comercial, num qualquer cinema arrivé prés de chez vouz.
Apagam-se as luzes e logo começa o frenético compasso de mandíbulas e maxilares dos predadores de pipocas, o risinho nervoso e o comentário alarve a cada pixel de seio desnudo da protagonista.
No final, noto agitação junto à porta...o arrumador, qual 4º árbitro, levanta a placa dos 3 minutos: o filme ainda roda mas já há luz na plateia. Não houve golos, o público não ajudou, mas gostei do espectáculo.
Lá volto a subir escadas e a calcorrear corredores...A caminhada abre-me o apetite: atiro-me a uma sandwich de qualidade duvidosa - que ainda me trabalha no estômago - finto o bowling, nó cego à Loja Verde e volto à minha Galáxia.
Alvaláxia, Alvaláxia....
Orlando Paiva Couceiro
Sem título #3
Se te escrevesse
Um poema de amor
e deixasses tudo
- menos a mim -
Que não te deixo em paz
Por que não me deixas dormir.
Se me deixasses
Deixar-te
Não precisarias de deixar tudo
Nem me deixavas
Assim.
Orlando Paiva Couceiro
diavintecinco
Sair de casa, meia-noite e meia. Encontro no Bairro, com amigos. Arranjada uma festa. Bom som, bom ambiente. Bujas, bubbles, Vodkas. Horas de sair para outra festa, desta vez na Linha. Uns times, mais Vodkas, bubbles, ambiente, som e a foz do Tejo.
É Natal.
Sol a nascer, voltamos para casa - conduz o meu amigo, eu não.
Derek Foreal
O vibrador
Telemóvel com vibrador. Maravilha da tecnologia. Pode avisar-te quando há barulho p’a caralho - mas não quero falar do lugar comum de quando tás na disco à espera de uma chamada.
É quando estás no carro que o telemóvel é mais útil. Colocado no meio das pernas, não há que enganar. Mesmo que o som esteja a partir, ele toca – e vibra -, e tu sentes, respondes (não tenho a ambição de ser politicamente correcto e de apelar à não utilização dos télélés no carro). E se sentes. No meio das pernas, ele afaga-te os bofs. É tão bom. Massaga, relaxa. Faz-te fazer renascer experiências passadas, julgadas esquecidas. Ou apenas sentir uma boa massagem nos bofs. Sorris, acendes o cigarro e afundas o pedal. De gás colado e com uma brisa a soprar na carola,tipo Travolta no Pulp Fiction, ou o Dean no On the Road.
Roçando a aresta da piada fácil, não posso deixar de im agina r o efeito que terá nas mulheres. Também deve ser bom.
Protótipo
Natal no Reino Universal
Na zona sul quase toda a gente tem um cão em casa, muitos deles demasiado amplos para o espaço dos apartamentos e excessivamente peludos para um país tropical. E é vê-los aos molhos pela mão de meninos menos cuidados, mais enfezados, mais desgrenhados, pior alimentados, que os áridos animaizinhos. Estes meninos mais definhados são os pobrezinhos que os vão buscar a casa, destituindo-os da sua principal função de ser parte da mobília, e levam-nos para sujarem a rua. Os animaizinhos passam muito tempo com os pobrezinhos. Os destinos de ambos foram unidos pelo mesmo dono ciente que em termos de decoração de interiores não há nada que combine melhor com um animalzinho que um pobrezinho. E por isso toda a gente tem também um pobrezinho, normalmente numa outra forma de animal doméstico: ora mais velhos, característica rara hoje em dia,
- já não se fazem pobres como antigamente
outros mais novos no auge da sua carreira de pobre, e há quem goste deles pequeninos, os chamados pivetes.
Aos animaizinhos dá-se comida cara, brinquedos coloridos porque estão sempre sozinhos e um plano de saúde de luxo. Aos pobres dão-se sapatos sem sola, camisas que assim não se tornam panos do pó, e quando adoecem,
(vá-se lá saber porque é que ficam doentes)
recebem com um sorriso agradecido uma lapela de comprimidos fora de prazo, e não interessam quais porque os pobres usufruem de todas as doenças do mundo.
O plural de pobres é gentinha. E a gentinha tem nomes estranhos, como arrumadeira, faxineira, marido da faxineira, mulher do motorista, filho do caseiro, e todos têm como principais apanágios serem miseráveis, analfabetos, bêbedos,
(embora estes tenham maiores dificuldades em encontrar um dono)
e acima de tudo são obedientes, intransmissíveis, e chegam a ser ensinados como as crianças a não aceitarem coisas de estranhos.
- Desculpa doutor mas eu não sou o seu pobre
Como o seu mestre Lula afirma a educação é fundamental, e não se podem permitir insolências do tipo do pivete que ao receber dois reais da dona atenciosa
- Agora veja lá se não gasta tudo em cola
- Não tia vou comprar uma lancha
Aqui parece que ser pobre não é uma condição, mas um dom, que os leva a escolher tão árdua carreira, como ser artista plástico, ou freira numa obra de caridade que no Rio significa uma excursão de tias munidas de trapos e lapelas de comprimidos, até às favelas onde os pobrezinhos moram em casas incrustadas na gordura da pedra, e onde a vista que têm é a sua única compensação.
São muitos mais que os donos, para alterarem as coisas bastava-lhes levantarem-se e sacudirem o dorso como um boi sacode um mosquito, mas em vez disso, quando não estão a trabalhar, e não estão doentes, vão a uma dessas igrejas que surgem como cogumelos infestantes, e é tal a sua afinidade com Deus que tal como os santos apenas possuem nome próprio. Onde já se viu o dono tratar o seu pobre por Valdisney Sotto Maior ou Uóchinton Lima Cardoso. A única diferença é que no lugar de morarem pendurados nos pescoços ou em redor dos pulsos de outros, habitam vestíbulos de apartamentos e conduzem carros que não são os seus.
Contam-se em milhares os milagres entre eles, como gente à beira da morte e que não morre, úlceras nervosas diagnosticadas que não passavam de solidão numa vida desesperada a que os ricos chamam pobre e a que os pastores chamam rica. Normalmente tais intervenções divinas vêm acompanhadas de um logro chamado dízimo, que não passa de uma percentagem da sua miséria partilhada com um desses eficientes administradores de desgraças alheias, tão eficazes que conseguem transformar um mar de tristeza numa imensa fortuna espiritualmente administrada em qualquer lugar longe daqui, e muito, muito perto do paraíso.
mr eddie
(versão brasileira herbert richards)
Desencontros
Aquela sensação sentida quando se encontra alguém que bate forte e feio, aquele arrepio, aquela pancada seca nas tripas ou no estômago, ou lá onde se instala a sensação - à falta de melhor termo - fodida que explode quando vês uma miúda à maneira, e que normalmente faz com que faças figura de urso pintado de vermelho - finges que não vês, escondes-te; ou se não finges que não vês - e encaras o touro pelos cornos -, fazes merda, pisas a poça. Finges ser tu próprio.
És aquilo que julgas que ela quer que sejas, ou aquilo que pensas dever ser. Inseguro, atado, impotente. Um impostor. Deliras com a utopia. Enganas-te, mergulhas na piscina sem água. Está frio, esquece.
Já quando encontras alguém que não bate assim tão forte, és o James Bond, e tudo cool.
Shaken, not stirred.
Protótipo
Pecado original
O que eu gostava de ter catequese hoje em dia. Segundo a Bíblia, a humanidade descende de Adão e Eva. No entanto, estes apenas tiveram dois filhos, o Caim e o Abel. Ora, se o Caim matou Abel, a descendência vem donde - o Caim papou a Eva?
E depois, como é que foi?
Como se não bastasse, o pecado original foi comer a maçã.
Enfim, o melhor é não pensar mais nisso e acreditar em Darwin.
Protótipo
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Holy Graal
Estive a rever o Hi-Fi. Um filme sobre a pessoa certa, sobre o amor, sobre relações, e muita música. Sobre o what's it all mean thing numa perspectiva afectiva. Sobre quando é que duas pessoas sabem que são feitas uma pr'á outra e que não vale mais a pena procurar.
Ela realiza que é ele quando lhe morre o pai. Sai-lhe esta frase assombrosa - I'm too tired not to be with you.
Protótipo
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Chover no molhado
Estava este V/ servo no pico da concentração, qual Serguei Bukba de vara em riste em passada determinada para transpor a fasquia a 6,07m, quando foi impertinemente interrompido por uma vozinha que lhe atirou, meio aflita, com o olhar em busca de auxílio: "Já viste o que chove?". O lusco-fusco e a translucidez da janela permitiram-me constatar a intensidade do aguaceiro, no que anuí com um balbiciante "Hã, hã".
À laia de uma epidemia de amianto ("asbestos" para os anglo-saxónicos, uma verdadeira pérola linguística) que hodiernamente provoca evacuações de edifícios inteiros, a angústia pluvial estendeu-se aos gabinetes contíguos e corredores adjacentes: "Tss...bem...., olhá chuva!", "Eia pá, tou lixada, não trouxe chapéu...". Do loud speaker fomos informados que, a partir dali, entrámos em DEF CON 4 e que o melhor era ligarmos para as respectivas famílias...
Sempre me irritou esta coisa da chuva. Não sou um Sr. Amparo da condução, também não comungo das habilidades do Sr. Senna; cumprindo escrupolosamente - e não sem uma ponta de vaidade - o dress code de escritório, não trabalho ao ar livre, pelo que guarda-chuva nem vê-lo. No limite, partilho o cliché patético-romântico do gosto-da-chuva-quando-estou-em-casa-quentinho-e-não-tenho-de-sair-até-porque-o-cão-já-foi-à-rua.
Mas daí a viver na tensão antecipatória da gota de água que bate no vidro e degenera em copioso aguaceiro e, sem misericórdia, nos atira para a insegurança pueril do "e agora?..." vai uma distância considerável.
Ainda agora, no preciso momento em que escrevo estas linhas, e porque se aproxima o fim do dia de trabalho, oiço nas minhas costas "tens chapéu? e gabardine?". Que aflição! Parece que vivemos em Cabo Verde, onde a aridez da paisagem inspira os desejos da chuva ausente há decadas de agricultura de improviso sobre a rudeza do solo de calhau.
Mesmo assim, a malta não se atrapalha: se a falta de dinheiro era pretexto para não ir às compras, já um sábado de chuva pode proporcionar excelentes passeios de "lambe-vidraça" nas avenidas do Colombo. E que dizer das corridas frenéticas pelos corredores das Bebidas & Produtos de Higiene do Jumbo, que sempre são mais seguros que a voltinha-dos-tristes pela Marginal...
Pausa: chegou um colega. Perguntam-lhe "Estás bem?" e ele "Se estou bem?? Estou encharcado...apanhei uma molha....". Pudera...
Tudo visto, o País está preparado para o Euro-2004, para ter partidos chamados BE e PND, para gastar o que não tem, mesmo se não podemos organizar uma regata. O que é que isso interessa?, quando se vai chover - vai tu - nos determina a vida e pesa em decisões tão importantes como estender a roupa que vai ficar toda molhada, ou não sair de casa para estar com os amigos ou mesmo não mostrar o cartão vermelho ao Jorge Costa pelo carrinho fora de tempo que se deveu ao relvado escorregadio?
Cá por mim, prefiro pensar que a "chuva fraca passando a regime de aguaceiros" que nos vendem a seguir ao Telejornal vai aborrecer e importunar aqueles que tanto me aborrecem e importunam...quando chove.
Orlando Paiva Couceiro
O meu Tio
É feliz. Tem a casa paga, a varanda fechada para agravar o mau gosto da sala e fincar a sensação que vive num casarão. Tem um emprego estável onde há 30 anos vê literalmente barcos a passar, numa vida interior de uma assoalhada onde coabitam o seu trabalho de funcionário de alfândega, o Benfica, e as pernas da minha irmã Matilde.
É feliz. Trai a mulher com a sobrinha que o explora a cada toque e o desfigura numa erecção humana em vias de explosão.
Com ele aprendi que os fieis só conhecem o lado trivial do amor. A infidelidade é que sabe das tragédias do amor
Todos os domingos vem excitar-se com a minha irmã sob pretexto de visita à irmã dele, minha Mãe, acompanhado da minha tia, sua mulher, e ambas passam horas a partilhar o seu domingo, enquanto ele passeia distraído pelo jardim, de jornal desportivo encaixado no sovaco, a roer-se por dentro devido à minha irmã não estar em casa por não precisar de roupa nova nem de dinheiro desde que apanhou um novo namorado, dono de alguns salões de jogos na periferia, que preenche todos os seus requisitos.
É daquelas pessoas que ao falar me segura o pulso e me olha com o seu rosto azeitonado como se me medisse o ritmo cardíaco, o que até entendo, porque não é fácil resistir às palmadas que apanho no ombro quando me larga o braço que passo então a usar para imunizar um mínimo de espaço entre o seu hálito e o meu nariz, entre a película de saliva que lhe une os cantinhos da boca, que ao falar parece que se vai rasgar num ruído de linho, e os meus olhos empalidecidos a desmaiarem com a adjacência daquele mundo de pontos negros na pele, de pêlos enormes nas narinas e na testa, de sobrancelhas despenteadas, de pálpebras papudas, descaídas e sanguíneas.
Quando acaba de falar recua ligeiramente, inspecciona-me de alto abaixo e questiona-me intrigado
- Estás com algum problema? Chatices com a miúda...
A pedir-me um fonema que seja. Um mais ou menos que seja. Qualquer indagação que seja para que possa continuar a comandar aquela espécie de valsa, a empurrar-me até à varanda cuspindo argumentos, a comprimir-me o bíceps ao fazer pequenas pausas que perguntam,
- Tás a perceber?
numa fase eu já só abano a cabeça como um leque e anseio pela chegada das pernas da minha irmã para desviar a atenção daquela criatura prestes a devorar-me, e enquanto elas não chegam vou-me agarrando bem ao parapeito, plantar um sorriso enquanto abano a cabeça, umas vezes numa direcção, outras noutra, e esperar pela minha vez de ter sobrinhas.
Joaquim
Já vais ver
Interrogo-me acerca da causa do Já vais ver. Não entendo o excessivo suspencezinho do quotidiano. Já reparei que sempre que alguém põe um CD e lhe pergunto que musica é, invariavelmente me responde Já vais ver ou limita-se a substituir a resposta por um sorrizinho melífluo. Serão aqueles 2 segundos antes da musica começar o seu grande momento de glória em que só eles detêm uma informação que o resto do mundo desconhece? Sentir-se-ão expostos com a revelação da escolha? Terão medo que a critica antecipada lhes destrua a gosto? Não sei. E Enjoa-me quem abusa do efeito surpresa, mas vendo bem as coisas quase toda a gente o faz. São tantas as situações em que nos dizem Adivinha! Principalmente as mulheres que chegam ao cúmulo do Adivinha o que fiz hoje? Onde fui? O que vi? Quem lá estava? O que comi? O que comprei? Não sei porra! Como é que querem que eu saiba?
- O que é que estás a beber?
- Prova!
Isto faz algum sentido? Parecemos todos criancinhas a abanar os presentes – Outro livro não é...
Tento adivinhar porque é que não se inscrevem todos no Preço Certo e vão mandar palpites ao gordo lagarto de caracóis que por lá anda?
Mr eddie
A insustentável leveza das pitas
Quando decidi que gostava de mulheres mais leves que o próprio ar acabei por casar com uma óptima hospedeira óptima, amiga da minha irmã que também nunca primou em qualquer tipo de peso. Fiz mal.
- Obrigado Matilde, a sua amiga fascinou-me.
- Eu sabia que ia gostar.
- Eu não gostei. Disse que ela me fascinou. O que é muito diferente.
Para tornar a situação mais pesada ainda a engravidei (em vão, num vão) mas a primeira vez que a perdi de vista e me esqueci da janela aberta, flutuou até alguém que lhe pesasse mais os bolsos do que eu, e a fizesse voltar a viver a uma altitude em que o ar não fosse rarefeito sobretudo porque lá em cima não há festinhas sociais, cabeleireiros, ou lojas.
A nossa filha já nasceu a emergir, como um balão nervoso debaixo de água, do ventre da própria mãe. Se vier a confirmar, como suspeito, que os níveis de hélio são geneticamente transmissíveis, a minha filha aeróstato não deverá pousar nunca. E eu também não porque não há peso que aguente tanta oquidão.
Mr.eddie
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A Epiderme
Caros Homens,
Nós, quando admiramos o físico de uma mulher normalmente identificamos beleza ou sensualidade com uma cara laroca, boas mamas, uma boca sensual, boas pernas e um bom cú (para as senhoras que estejam a ler, embora esta missiva não lhes seja dirigida - A língua Portuguesa é assim mesmo, rude e feia. Estive a pensar em terminologia alternativa como seios, peitos, tetas, maminhas, rabo, peida, mas é tudo para esquecer).
E nisto não damos importância a algo fundamental. A pele. De facto, a mulher é feita de pele - toda ela é pele - e, naturalmente, sem pele à maneira não poderia haver uma cara laroca ou um bom par de mamas. No entanto, a pele é por nós desvalorizada. Só lhe damos importância para criticar, quando elas têm a cara toda em obras. Essa é a verdade, não a escamoteemos. Por outro lado, quando ela tem uma boa pele, não lhe atribuímos o lugar que merece, porque não temos consciência da importância que de facto tem. Ou alguém já ouviu um gajo que não seja roto virar-se para outro e dizer – Bem (!), fodassse (!), vê lá aquilo (!), grandes mamas, granda pele!
Até há alguns meses atrás não me apercebia da importância que inconscientemente atribuía à pele de uma mulher. Hoje em dia realizo que uma boa pele – pessoalmente, e embora não tenha preconceitos, de preferência macia e de tez branca - é conditio sine qua non para que uma mulher seja considerada atraente. Dou-lhe valor. Hoje em dia já me ouvem dizer - Que pele! - Graças a Deus por elas não serem negligentes. Viva depilação, os cremes e produtos cutâneos afins.
Protótipo
Comunhão de adquiridos
Não queria que pensasses que sou uma manta de retalhos. Que vai faltar dinheiro para pagar a prestação das inutilidades que nos fizeram casar, de construir algo que pode até nem ser mais nada do que uma partilha de despesas, uma jogada contabilistica, que até parece coisa séria.
E, por isso, respeitam-nos.
Orlando Paiva Couceiro
Sem título #2
Não consideras a vida
Uma longa e estreita viela
Feita dum empedrado irregular
Simbiótica com a essência dela
Apressa-te, é tempo de partida?
Não, considero a vida
Uma avenida ampla e bela
De textura modelar
Colorida de forma exemplar
Contrastando no negro da sequela
Devagar, adia a tua ida
Não consideras a vida
A ponte para o desespero
Imponentemente intimadora
Ai, que esta dor te doa
Pois é a ti que venero
Avança, ali está a saída
Não, considero a vida
Um mar de alento
Por onde o homem nadara fora
Para longe, Pai perdoa
Não és tu quem eu quero
Permaneço, junto à entrada.
Orlando Paiva Couceiro
Blague
Ciente das minhas habilidades com a esferográfica, convidou-me o Protótipo para aderir a esta Comunidade. Só mesmo a amizade pelo sujeito impediram que declinasse liminarmente tal proposta.
Na verdade, sou avesso a movimentos de adesão generalizada, muito menos durante os períodos de “estado de graça”, como sucede actualmente com a Comunidade blog, não vão chamar-me de oportunista ou situacionista.
Sempre fui assim:
- Não sou baptizado, graças a Deus! (obrigado, Pai, obrigado, Mãe). Nem por isso perco de vista a igreja de Santos-o-Velho…e também aos Domingos. Mas acabei de sair do Kremlin, o tinto da missa das 9 acabou de ser aberto para “respirar” mas já não me apetece beber e “bom dia, Retális, é para Campolide, se faz favor”. Quando me deitar já o bonacheirão pároco João Seabra, na sua dicção acentuadamente sadina (“Orrremos ao Senhorrr”), tenta manter acordadas as velhotas, as queques e os filhos de família, estes genuinamente sem olheiras. Agenda de eventos de caridade e retiros, últimas do Vaticano, propinas do São João de Brito, óstia e ide em paz. “A prrropósito, tem um cigarrrrinho, que os meus ficarrram na sacrrristia?” De papo cheio e alma limpa, os paroquianos dirigem-se apressadamente para os BM’s mal estacionados e ala para Azeitão!;
- Não tenho filiação partidária. (e ainda não vai ser desta, Monteiro!). É que por detrás da nomeação perdida, mas bem embrulhada, na prolixidade do Diário da República para um cargo de assessoria de utilidade duvidosa (sim, porque no Ministério da Defesa muitos nunca são demais para defender a independência nacional), está uma vida de…Bom, não sei se lhe posso chamar assim: ele é a reunião da distrital na segunda à noite para uma leitura orientada das palavras do líder na entrevista ao DN que ninguém leu (excepto a utilíssima última página “O DN num minuto”); é o calor desideratante que emanava da alcaltifa do pavilhão de congressos ou a pele ressequida do cabrito assado no forno, servido no jantar-convívio “a-25-euros-que-as-eleições-estão-aí-e-a-factura-da-gráfica-também”. E, pior ainda, é o cartão de militante, por que trocamos a liberdade e a probidade connosco próprios; mais do que o nosso cartão de identidade no partido, é o recibo daquele preço que pagámos.
-Não sou sócio de nenhum clube de futebol (mas também não teria votado em ti, Jaime Antunes). A contingência do resultado e a forma como influencia directamente o nosso estado de espírito e nos tolhe a razão afasta liminarmente a minha adesão e a minha quotização. Mas traz-me o vigor do protesto e da insatisfação, mesmo quando a equipa ganha, ludibriando, como uma finta do Simão, os meus empedernidos amigos sportinguistas de camarote que me acusam de “não ser um verdadeiro lampião”. Sabem lá eles o que é ser benfiquista e carregar o peso de uma vocação e de um destino que nos preexiste!
Enfim, não serei muitas outras coisas, mas sou membro efectivo e de pleno direito desta Comunidade, um blogueiro, um bloguista. Pró que der e vier…
Orlando Paiva Couceiro
Definição
O Amor é um gajo estranho.
Estranho-te muito, querida. Continua a estranhar-me como sempre fizeste até aqui; como a um estranho.
Orlando Paiva Couceiro
Moderno
Nada há de mais moderno na modernidade do que a pós-modernidade
Orlando Paiva Couceiro (a.k.a. Astuto)
Sem título #1
Desde que te amo
a minha vida não mudou
Absolutamente
Nada.
Nem eu mudei
És isso mesmo, parte dela
E quando já não te amar
Fica tudo como era.
Nem nisso mudei.
Astuto
Momentos inesquecíveis
"pisei merda", "o feriado é no domingo", "estou com o período", "estou de ressaca", "não me vem o período", "o seu saldo não lhe permite realizar esta operação", "estou enjoada", "estou de caganeira", "foi sem querer", "perdi as chaves", "não me vim", "não há papel higiénico", "preciso de mais um cobertor", "pus sal a mais", "não há água quente", "para a semana é o fds do escritório", "quero ver a telenovela", "são 20 euros por pessoa", "fiquei sem tabaco", "não há ondas", "[`tás com mau hálito]", "não há whisky", "furei o pneu", "baixa a tampa da retrete", "deixei tempo demais no forno", "quem é que se peidou?", "não há Plumas", "estou seca", "faz favor soprar", "o Sporting levou um golo", "tira a mão daí", "...mas eu não sinto nada por ti", "`bora aí à Kapital", "comi demais", "chegaste atrasada", "tenho que ir às finanças".
Protótipo
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Casamento
Como é possível que duas pessoas - inteligentes e com honestidade intelectual - possam jurar fidelidade “até que a morte nos separe” tendo consciência da elevada taxa de divórcios nos casamentos de hoje em dia?
Mesmo tendo certezas quanto aos seus sentimentos, atenta a possibilidade (grande) de a coisa poder vir a dar em divórcio, não se deve de boa fé jurar – ainda mais perante o Deus em que se acredita e amigos e familiares mais chegados -, quando se sabe poder vir a não cumprir.
A única maneira de não se ser hipócrita nesta matéria seria prometer intenções, nunca jurar compromissos eternos.
É a hipocrisia institucionalizada, desta vez levada ao colo pela igreja.
O certo é que a honra vale pouco, hoje em dia. Alguém faria um contrato de 20.000 contos sabendo da possibilidade (grande) de não poder pagar?
Mas se calhar sou eu que estou a ver mal a coisa.
Protótipo
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Procissão
Bairro Alto, Clube da Esquina, fim da semana. Amigos, som, bujas, olhares cruzados, conversas, descomprimir, rir, ver e ser visto. Velhas à janela. Descontracção progressiva, na medida do som, do ambiente, da companhia e da bebida. Majong. Chuva. Tudo lá dentro, matrecos, apertos, gente gira, modas, ganzas, times, copos, gente feia, apertos. Copos. Rituais de acasalamento. Ideias soltas, à larga. Calão, fumo, pisadas, paleio, risos, sedução, euforia, som, dança, nódoas. Cores vivas. Roupa estendida. Amálgama de chungas, pitas, gatas, farrapos, bêbados, pessoal pseudo, betos, gays, junkies, wannabees, pessoal batido, gente da noite. Caras novas, novas ideias.
Na noite o pessoal tira férias. O relax transpira com a ajuda do álcool e do som, o normal torna-se elástico. Os Portugueses são uma cambada de alcoólicos sociais. Bebemos para permitir os excessos que a timidez não concede.
Já é tarde, e a procissão ainda vai no adro. É altura de seguir para o sítio do costume ou, com sorte, para outro sítio qualquer.
Protótipo
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Geórgia
Este fim de semana li que na Geórgia, ex república soviética agora na berlinda, em cada sete homens há – pasme-se – um príncipe. Fodasse, se por cada sete homens há um príncipe, tendo em conta que a população da Geórgia é de 8,560,310, e partindo do pressuposto que metade da população é masculina, existirão mais de meio milhão (610.450) príncipes na Geórgia. Já para não falar em princesas, ou no resto da nobreza.
Mandem-me a Caras para lá! (mas deixam cá a Sofia Cerveira)
Protótipo
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Liberdade
Somos livres, ou um produto das circunstâncias?
Na minha opinião, tudo depende das circunstâncias.
Protótipo
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Elephant
Fui ver o Elephant, um filme sobre a vida num liceu, o liceu de Columbine, e sobre a vida de miúdos que têm uma vida normal. Sem explicação aparente, dois dos miúdos começam a matar a torto e a direito, indiscriminadamente. Ficamos à espera de que o realizador nos diga algo que faça com que aquilo tenha algum sentido, mas não nos dão essa satisfação. Como se o assassínio de não sei quantos putos por colegas da escola pudesse alguma vez fazer sentido.
Protótipo
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Egoísmo
Somos egoístas. Fruto de morais egoístas.
O cristianismo diz-nos para fazer o bem, e que assim nos será dado o reino dos céus. O agnóstico faz o bem, e a sua consciência fica em paz, reconfortada.
Dê por onde der, ao fazer o bem, somos sempre recompensados e, consequentemente, sempre – objectivamente - egoístas.
Protótipo
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vida sem fundos
O relógio do tablier do meu carro marca sempre quatro e dez desde que me rebentei contra uma montra, numa alucinação de bebedeira. São as horas imóveis de um dia muito bolorento.
Desde então fumo dois maços de cancro por dia. Quando não tenho dinheiro cravo,
- Arranja-me aí um cancro por favor
nunca ninguém recusa, no fundo apercebem-se que lhes faço um favor.
Sinto-me como se estivesse prestes a emitir um cheque sobre uma vida sem fundos. A minha.
Um olhar retrospectivo à evolução da minha existência causa-me uma impressão de danos irreparáveis.
mr eddie
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Gente de papel
Se toda a gente sabe que vai morrer, porque é que há tantos que agem como se não o soubessem? Seria-lhes a vida insuportável de outra forma?
Confesso que a decadência sempre me atraiu como observador. Olho com um interesse ameninado pessoas ditas efémeras, ou fúteis, ou se calhar apenas normais, como tantas outras que na sua balança equilibram a estupidez com a riqueza, o vício com a hipocrisia, ou ainda outras mais perversas que vivem a arte como uma doença, o amor como uma ilusão, a religião como um sucedâneo elegante de fé. É este o vazio da sociedade ocidental onde encontro o meu espaço. O podre dos outros é o meu sustento. Pessoas, gente, vidas, bonecos recortados em papel de existências recortadas em papel.
Mas quando se observa a vida, e o que ela carrega de dores e prazeres, não é possível esconder a cara numa máscara de vidro que impeça vapores sulfurosos de nos eclipsar o conhecimento e turvar a imaginação com sonhos abjectos. Há venenos tão exclusivos que para conhecê-los urge experimentá-los, como males tão hediondos que para os entender é preciso contraí-los.
As tragédias da vida real ocorrem de maneira pouco artística e ferem-me pela sua violência rude, pela sua incoerência, pela ausência absoluta de significado e falta de estilo. Afectam-me exactamente como me afecta a vulgaridade. Causam uma impressão de brutalidade que me indispõe. Porém, a tragédia dotada de elementos de beleza artística atravessa-nos a vida. Se esses elementos de beleza forem reais, o drama apela para o nosso senso de efeito dramático. E num ápice apercebemo-nos que passamos de actores a espectadores da tragédia. Ou ambos. Contemplamo-nos, e a singularidade do espectáculo cativa-nos e esmaga-nos.
Passarmos a espectadores da nossa própria vida é escapar aos sofrimentos que ela nos trás e talvez ajude a não cair no pântano.
Joaquim
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Cerveja preta é um corte d'onda
Estava eu nos Pirinéus, no saco cama, a ouvir Cramberries nos phones - tinha 15 anos -, quando se apoderou de mim um momento místico, daqueles que surgem sei lá porquê (sei que este paleio é uma beca conas, mas que s'a fôda).
Saído do saco cama, vestido e ido ao bar lá em baixo.
Sentado ao balcão, ainda místico, peço uma jola ao fraciu, apontando para os bicos de imperial. O franciu, aponta pós bicos – e eu dar-lhe nos bicos -, como que perguntando em linguagem gestual - É isto que queres? - Ao que eu respondi, também gestualmente - Ya.
Místico, sei lá em que pensava – é que a minha memória de antes de ser pessoa é como a visão de um gajo a fazer um minete com óculos, nublada -, mas tava-se bem.
Vai daí, aparece o filha-da-puta com uma caneca de cerveja preta, que eu nunca havia provado – Cerveja preta (!?), caralho... – pensei. Eu curto experiências novas, mas – fodassse! -, tava místico e a aparição daquela merda avacalhou a cena toda, sei lá eu porquê.
Claro que dei um golo. Não curti, foi-se a mística e bazei.
Protótipo
Gás colado
Este é dedicado à hipocrisia institucionalizada.
Porque será que, tendo as auto-estradas o limite de 120 km/h, e sendo estas as estradas onde se pode andar de gás mais colado, se insiste em homologar carros que podem andar mais que o limite legal?
Bem sei que seria uma grande fóda fazer Lisboa - Santa Comba Dão a 120, ou não andar de Porshe daqui a uns anos, mas, que s’a fôda - há ou não que ser coerente?
Será que não é óbvio que o Governo não pode comer a noiva do outro (homologar carros que andem a 280Km/h) e ficar de consciência tranquila (dizer que faz tudo para que não se viole o limite de 120 Km)?
Se calhar sou eu que tou a ver mal a coisa.
Protótipo------------------------------------------------
Causa-Efeito
O cinismo favorece;
A beleza intimida;
A inteligência estimula;
A sensualidade convida;
A estupidez entristece;
A cobardia enraivece;
O preconceito interroga;
A cobiça envaidece;
A indiferença desinteressa;
A ambivalência recompensa;
O amor cega;
A cortesia engana;
A honestidade incomoda;
A petulância diminui;
A mentira convém;
A distracção leva ao sonho,
e a obsessão à depressão.
Protótipo
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A outra perversidade da violência doméstica
A violência doméstica deverá ser um dos grandes responsáveis por aquela espécie de entorpecimento da alma a que os psiquiatras chamam de desamparo. A tendência a perverter o assunto é fortíssima.
Com o passar dos anos a questão da violência doméstica tem-se tornado mais refinada e hipócrita. A selectividade de todos os organismos de apoio à vitima realçam o cariz machista, e sobretudo paternalista, que levita à volta desta questão. Comecemos pelos inúmeros casos, que se estendem ao comprido dos anos, onde as vitimas se tratam de mulheres financeiramente independentes, muitas vezes até melhor pagas que os maridos, e que se sujeitam a casamentos sórdidos por opção própria. O lume brando dos casais cozinha situações de agressão intolerável. Mas mútua. Onde nem sempre existe só uma vítima. Onde ninguém tem alento para ir embora, seja por acomodamento, vergonha, medo, ou esperança.
Quando se fala em violência doméstica pensa-se numa vitima indefesa. Pensa-se mal. Obvio que existem, e são muitos, tristes casos de mulheres com a existência totalmente subjugada ao poder físico e económico do marido, vitimas sem capacidade para abandonar o cargo, vitimas que só o deixarão de ser com a ajuda da sociedade. Mas também existem, e também são muitos, dolorosos casos de homens vitimas de violência doméstica. Serão otários? Homens pouco homens? Penso que não. Mas a lógica contrária nunca vigora. As mulheres nunca são tidas como otárias, não há mulheres pouco mulheres. A nossa sociedade não alcança que nem sempre o homem é uma besta, que podem haver dois culpados, em vez de uma cavalgadura e um coitadinho. Não gosto desta bifurcação de critérios. Se fosse mulher gostava ainda menos, a não ser que me favorecesse dela para passar pelo que não sou, como muitas fazem, e é isso que contamina toda a questão. Em situações simétricas, logo comparáveis, a mulher tem mais mãos a quem recorrer.
Sei que não há vitimas por vontade própria. A vitima nunca o escolhe ser. Dizer que alguém se deixa vitimizar é um disparate. Claro que podem haver benefícios decorrentes, mas então deixa de ser uma vítima legítima. Aqui interessa-me as que o são.
Interrogo-me que ajuda é que uma sociedade, que apenas concebe uma só face da violência doméstica, pode dar a um homem vitima de agressões psicológicas ou mesmo físicas. A quem é que um homem pode recorrer? À policia? Para ser enxovalhado por olhares vesgos e risinhos – símbolos sonoros de imbecilidade. Aos amigos? Aos filhos? À mãe? A ele próprio? A ninguém. Porque alternando o sexo a mesma situação passa de tragédia a anedota.
mr eddie
Qual é a graça de saber as coisas?
O sistema de justiça português é bom. O caso Pia e o sorriso obliquo que Vale e Azevedo nunca descola, são dois pequenos exemplos, mas tiraram-me quaisquer duvidas que ainda pudesse ter. Será que ninguém ainda reparou que o nosso sistema de justiça assenta num principio simples e arrebatador. A ideia basilar desse principio ensina que a verdade é um monstro de muitas faces. Que o saber exacto é fatal e na incerteza é que está o encanto.
O nevoeiro dá às coisas aspectos maravilhosos.
mr eddie
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Castrados
Prezo a liberdade de pensamento, a liberdade em todos os enfiamentos da vida.
Escrevo sobre sexo, preconizando a liberdade sexual, e o pessoal - afunilado por preconceitos inabaláveis - diz-me - Então e a tua namorada?
Fonex, pessoal, escrevo para libertar partes de mim, que sei serem partes de nós todos. Se o digo, não quer dizer que o faça, que o queira fazer, ou o contrário. Quero é chamar a atenção para o facto de os nossos desejos serem de muitas formas e feitios constantemente engolidos pela tradição preconceituosa, contra-natura e castradora da nossa civilização.
Quem diz que tem de ser como é? Quem diz que estamos no caminho certo? Venha o Descartes e o niilismo outra vez. Ou então, pelo menos, cagemos no D. Sebastião e venha o Maio de 68, numa tarde de nevoeiro ou não.
Mas depois sempre seria fodido. Como é que é, quando depois de comeres a gaja do outro vem o outro para comer a tua?
Pois é...
Protótipo
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Porquê, Alfredo?
Li, não sei onde e quando, que Portugal é o país da Europa onde mais se come arroz, aparecendo destacadíssimo na lista, onde consta a Espanha em segundo, com metade do consumo. Os Luxamburgueses, pelo contrário, praticamente não comem arroz.
Posto isto, que me perdoe o Alfredo Saramago a linguagem e a ignorância, mas – Fodasse (!?), Alfredo - pergunto-lhe eu. – Porquê? O que é que nos leva a mamar tanto arroz?
Que aqui o vosso contribui – e de que maneira - para a estatística, é um facto, tal como o resto do pessoal nacional. Curtimos bué arroz. Não há cultos, e até diria que não nos apercebemos o quanto dependemos daquela cena. É como o ar que respiramos - precisamos dele para viver.
Que me perdoe novamente o Alfredo, mas – Fodasse (!), se não arroz, então o que é que os Luxamburgueses papam, Alfredo? E já agora, Fred, porque é que os tugas em Portugal mamam arroz p’a caralho e quando emigram pó Luxemburgo - onde há 20% de tugas - não morfam nada?
Perplexidades.
Protótipo
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Mentira?
Será a insinceridade uma coisa assim tão terrível ou apenas um método de multiplicarmos a nossa personalidade. Causa-me estranheza a psicologia superficial dos que concebem o ego, no homem, como coisa simples, permanente, estável, de uma só essência. A meu ver, o homem é um ser de múltiplas vidas e sensações, uma criatura complexa e poliforme, que carrega dentro de si uma herança atávica de ideias e paixões, mas com a carne corrompida pelas monstruosas doenças da morte.
Joaquim
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Bettencourt Picanço
O presidente do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE) chama-se Bettencourt Picanço. Este senhor afirma que “todos queremos a mudança”. Todos quem? Que mudança?
O governo pretende, não sei se o conseguirá, melhorar a coordenação entre organismos públicos, salários baseados na avaliação de desempenho por entidades externas, e contratualização de serviços a entidades privadas, desde que façam melhor e mais barato.
O senhor Picanço fala de mudança mas convocou uma greve para amanhã para tentar que tudo fique na mesma. Todos quem senhor Picanço? O senhor também? A sorte de todos é que com esse nome poucos o levam a sério.
Fisherman's friend
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Oscilação Bipolar
Será a nossa ministra das finanças bipolar? Provavelmente.
Não atesto com o rigor psiquiátrico daquele génio que acompanhou o sr Bibi e roubava doentes ao Dr Daniel Sampaio, mas parece-me irrefutável. A nossa ministra confessou que chorou noites a fio antes do orçamento. Presumo que agora, depois do orçamento, um pranto lhe atravesse o sono. No entanto, durante a luz do dia, exibe quase sempre um sorriso vesgo e galanteador. Será um sorriso postiço? Claro que não! Senão eu próprio não me tinha deixado seduzir. Sem sombra de dúvidas: temos ministra bipolar.
fisherman's friend
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os seres humanos são amargurados na medida em que são tristes
Lembras-te da minha rua? Lembras-te de me ver no craveiro da minha janela, naquele rés-do-chão ao nível da calçada onde se ouviam todos os cães do mundo, e se distinguiam fantasmas de carros. Assombrações protegidas da chuva suja do subúrbio sob capas cinzentas. Nessa altura só pensava em viver para subir andares. Esperava os dias a reparar nos carros à chuva, e só deixei de reparar nos carros à chuva quando te conheci Lurdes.
Continuo não muito alto, não muito bonito. Mas deixei de ter voz de menina ao telefone e passei a pentear-me para trás. Sei que vais gostar de me ver. Mas deixa-me desde já dizer-te, decerto concordarás, que odeio tudo aquilo que é débil, a começar pelos deficientes, pelo fardo dos desempregados e pelos indivíduos inadaptados como os membros da Quercos. E não me perguntes porquê porque me oponho violentamente ao exame introspectivo, não me pergunto nunca sobre quais são os meus motivos para agir. O Dr que a minha Mãe me pediu para ver, sabes como são as Mães, diz que culpo os outros de qualquer angústia ou atribuo-as a conjunturas externas, corpóreas ou inatas. Haveria de culpar quem?
Contaram-me que foste para a faculdade. Não acredito. Eu nunca estudei porque os estudantes são irascíveis e tardios. Como o indivíduo é um mero exemplo do género sei por exemplo que todos os Portistas são bimbos e impostores. Prefiro acentuar as características invariáveis, como a raça, contra as determinantes sociais. Penso em termos hierárquicos, pessoas civilizadas em oposição a “esta gente” que vejo por todos os lados.
Não entendo porque não me respondeste quando te mandei a caneca com o nosso nome. Tenho a certeza que gostaste, calculo que a tua Mãe não te deixe responder por seres muito pequena ainda.
Interessa-me a manutenção do status quo, da livre iniciativa, mas luto inexoravelmente contra todos os impugnadores políticos que, claramente, têm uma forte consanguinidade com o despotismo: o meu lema é "alguma coisa tem de ser feita". Não suporto o lodo do “errar é humano”. Acredito no mediano, no comum, com o qual me identifico, contra os soberbos, os snobs, e todos esses que sempre pensaram que eram melhores que eu. O Dr diz que estou num processo de incompatibilidade interior porque ao mesmo tempo considero o sucesso, a popularidade e factores semelhantes como a única medida do valor humano. Não deduz que sem eles dói-me o ar, o estômago e a roupa. Sei que me entendes. Sei que esperas por esta carta. Sei que ainda moras na rua do talho, na esquina da rua dos meus Pais. A tua campainha ainda fala a mesma língua com aquele vozeirão que me fazia tremer. Já não tremo. Sempre que te vou visitar o teu Pai continua a rir-se quando olha para mim, a tua Mãe diz-me que cresceste,
– Já te disse que ela tá no Barreiro com os filhos
que casaste com um Alferes, que vives numa vivenda geminada, que não te lembras de mim. Mas eu sei que é mentira. Que Alferes é que ia casar com uma miúda de 13 anos? Claro que te lembras de mim. Porque é que haverias de ir viver para o Barreiro com “essa gente”, a farejar o infinitesimal numa casa repetida se és a miúda mais polida da escola?
Talvez a minha doutrina de valores confesse a minha voracidade de poder, mas acabam por ser sempre os estranhos ao meu grupo que aspiraram ao poder, que conspiram na secreta confiança dos fuinhas.
Vais ficar orgulhosa porque já não vou à missa com a minha Mãe. Agora dou importância à religião só de um ponto de vista costumeiro, como um meio para ter os outros obstruídos. Principalmente, sou anti-religioso e "naturalista" no sentido em que aceito sem reservas a selecção natural como o principio absoluto.
Como poderias esquecer o miúdo feio que não podia correr porque era coxo, que ficava sentado a olhar para ti durante a aula de educação física, que te batia palmas depois do tremor do trampolim. Agora já não moro no rés do chão. Tenho elevador no prédio. À anos que não ponho pastilhas elásticas secas no botão da tua campainha.
Vais ficar orgulhosa porque sou completamente impositivo, embora aceite a autoridade pela autoridade e dela tencione a áspera aplicação. A minha sufocada sublevação à autoridade é dirigida somente contra os débeis.
Relativamente ao sexo, preferia não falar nisto mas quero que saibas que me conforta a ideia de "normalidade". O homem reputa sobretudo os valores masculinos; a mulher quer interpretar o ideal da feminilidade, que és tu Lurdes. Não concebo a existência do indivíduo subjectivo, contemplativo, de ânimo terno. Não admito piedade para os pobres. O meu rigor afectivo protege-me da possidoneira dos sentimentalismos, ancorado na recusa definitiva de ser o que chamam de sexualmente saudável.
Se calhar não me respondeste porque não sou muito bonito. Mas é a minha grande inteligência que não me o permite. A inteligência é uma caricatura para qualquer rosto. A partir do instante em que pensamos vamos ficando só olhos, ou só testa. Todos os homens consagrados nos diversos ramos do saber são inteiramente hediondos. Excepto na Igreja, onde passam vidas inteiras a dizer as mesmas asneiras, consequentemente, bispos de setenta anos sustentam uma aparência deliciosa.
Será que não me respondeste porque desprezo os homens em geral? É que me consome a bondade vesga, demasiado decidida, creio na minha natureza essencialmente má, ou melhor ainda, não distingo o bem do mal, acho que são um só, e se tiver que escolher um para caracterizar a minha natureza prefiro o mal. Quase toda a gente insiste em negar que está só e assim se transformam em fantoches de valores que lhes impuseram com indispensável violência, pois a realidade, qualquer que ela seja, da percebida à insuspeita, interior ou exteriorizada, não se subordina a ordem alguma, porque assim como o certo é o errado, o bem é o mal, a ordem é o caos. Mas isto tudo também não me interessa muito porque não penso em mim. Odeio pensar-me numa profundidade de reflexo. Frequentemente exibo uma filosofia essencialmente cínica em contradição com a minha convencional aceitação dos "valores ideais", mas ninguém repara, e se repararem, que se lixem. Na minha espontânea vida fantástica revelo fortes tendências devastadoras. Penso em termos de catástrofes universais, sei que espíritos diabólicos agem por todo o lado, e por isso não entendo quando dizem que confiar é bom, se desconfiar é melhor ainda.
Claro que te lembras de mim. Claro que te lembras do meu metro e pouco a coxear atrás do autocarro contigo lá dentro numa imobilidade tónica. A caneca é linda não é? Foi o meu meio para não sei bem o quê? É que interesso-me mais pelos meios do que pelos fins. Para mim, as coisas são mais importantes do que os homens. Considero os seres humanos sobretudo como instrumentos ou obstáculos, isto é, como coisas. Escondo a minha atitude inumanamente estereotipada por detrás da personificação: quando censuro os outros, não acredito em circunstancias nem no que está por de trás das coisas, mas em homens curtos, desonestos e corrompidos.
Antes de voltar para casa vou passar na paragem de autocarros para te avisar que mesmo trinta anos depois ainda tens o cabelo liso entalado no fecho da mochila e que te vais magoar quando a tirares à procura do passe. Senão te encontrar vou ter contigo ao pavilhão de educação física e sei que lá estarás a dar uma cambalhota no ar. É que já não aguento o eco demasiado ruidoso das minhas palmas.
Se calhar deixaste de vir porque me acusam de pressentir o vício em toda a parte e estar obcecado por ideias sexuais ímpias, mas não acredites porque sou a própria pureza sexual, e moral. Quando falo do mal refiro-me às orgias, corrupções sexuais e coisas assim. Idealizo apenas os meus pais e tu. Esta é a prova de que não sou hostil mesmo não tendo mais nenhum vivo e profundo vínculo afectivo. Para quê? O que me dão em troca? Em equivalência? Nunca recebo tanto quanto dou. Nunca olham para os meus olhos. Nem tu quando não me notavas a olhar o para o teu perfil do lado de fora da janela da tua sala, ou do autocarro e queria dizer que gostava de ti sem nunca ter sido capaz.
O Dr diz-me que me interessa mais o que posso tirar das pessoas do que qualquer verdadeiro afecto. Que sou manipulador. Acho que é a minha maior qualidade. Claro que para além disso sou muito apto. Diria mesmo que sou um poliapto.
Mas agora aqui entre nós deixa-me dizer-te que enchi a minha vida de tudo o que acabei de te dizer e que não sei bem o que é, não para evitar a solidão, mas para a preencher. Acho que as pessoas suportam a vida porque crêem que não estão sós. Sei disto desde aquela vez que tenho quase a certeza que me sorriste. E agora que o pavilhão escurece tenho mesmo a certeza que era um sorriso. De modo que vou para casa esconder-me do teu sorriso porque é de noite, e vou me fechar na minha cama estreita de mais de uma vida estreita de mais, na travessia de uma insónia arrependida na solidão de um colchão de beicinho.
Joaquim________________________________________________________________________________________________________
BACANAIS E CONFORMISMO
Porque será que o homem moderno recorre em massa à psicanálise para tentar conformar-se com uma realidade que lhe é desadequada em vez de se revoltar e reinventar os alicerces sócio-sei-lá-mais-quê da civilização que o oprime? Será que não conseguimos superar o conformismo? Estaremos com os butes assim tão enterrados no cimento?
Passo a exemplificar. Todos somos oprimidos várias vezes por dia pelo confronto de uma moral cristã - inventada por uma cambada de gajos doentes há 1400 anos, que (ainda) nos impõe uma prática monogâmica - com a cultura do sexo-pronto-a-comer.
Laetitia casta, Gisele Bunchen, Adriana Lima... Promove-se à exaustão gajas (desculpem o machismo, mas sou homem, e latino) óptimas; resmas, meio nuas; os sexys hot, F TV - um gajo papa visualmente centenas de decotes marados, mini saias, mamas e pernas por dia, que nos põem sedentos, ávidos, loucos, a pensar 60 vezes por dia em sexo, e, no entanto, ficamo-nos, em virtude de regras sem ratio e sentido aparente, que nos dizem que não podemos desbundar...
Pensem bem, caros leitores - Qual o fundamento da monogamia? O pecado? - Não me fodam. Estamos no século XXI. Desde que haja respeito, que se respeite a dignidade humana, e que se meta a camisinha - VENHA O BACANAL!
(Li sei lá onde a razão de ser da monogamia. Seria fruto da constatação de que, se não se fizesse nada, a fêmea escolheria o mais forte para reproduzir, deixando assim hordas de agarrados.)
Reconheçamos a verdade cartesiana - decorrente do seguinte axioma: toda a malta gosta de sexo pa caralho, sendo, nessa matéria, a diversidade rainha - tenho tusa, logo existo; há biliões de gajas, e eu, se pudesse, comia-as todas.
Quem é o bacano que não curtia comer três duma vez?
Se o que digo é indesmentível, então porquê continuar a marrar contra a parede? Conformismo?, o cimento secou?
Esta situação absurda faz-me irromper no cerebelo a seguinte metáfora:
20 putos no Santini, num dia em que há uma promoção em que the dude oferece gelados de graça. Os putos tão doidos. - Quero morango, limão, manga, chocolate, ...!!! - Gritam, histéricos. Nisto, aparece um gajo farsola com tiques autoritários da tanga, e, sem razões orçamentais que o justifiquem, começa a dizer aos putos: - Só podem comer gelados de um sabor!, quem come de morango não pode comer manga!
Fodasse, isto faz algum sentido? Vamos mudar a cena. Porque não?
Pela combi de vários sabores, Rebel.
Protótipo
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Turismo
Tipo boomerang leviano e inconsequente, bradamos aos céus, ecoando - o nosso destino é o turismo...
- O turismo, fodassse!? - !?. – Não pode ser, dizemos. - Conseguimos fazer alguma coisa de jeito...
– O quê?
– Cortiça, vinho...
– Não me fodam. Isso é prós bifes, pós bacanos do Douro e pó Amorim, não dá pó pessoal todo.
Cabisbaixos, frustrados, sentimo-nos mal. Somos uma merda. Calcamos a já esborrachada e malfadada auto estima.
Não temos indústria, não temos marcas, não temos know-how, não somos organizados, não somos disciplinados. Temos serviços.
Somos um povo simpático, hospitaleiro, tudo tranqui – bacano! -, com vocação ecuménica, chico-esperto a roçar o mitra. Estamos à beira mar plantados, com alto clima e altas praias, boa mesa, bom vinho, népia de terrorismo, népia de crime, temos jeito pó negócio (informal) e gostamos da festa.
Fonex - ? - vamos é dedicarmo-nos ao turismo à séria.
Ou alguém duvida que é o melhor produto que podemos entregar?
Protótipo_____________________________
But what do I know? I'm just a model...
A frase em epígrafe é constantemente repetida num programa tipo Big Brother para modelos, no canal Fashion TV, pelas próprias meninas, assim confirmando o estereótipo de que os modelos são uma cambada de fúteis com a cabeça cheia de nada.
But what do I know?, I'm just
Protótipo
B.I.
Boas noites.
Daqui, quem vos fala é um gajo à maneira que, por razões que se pretendem com a protecção da privacidade, da integridade física e do recato da sua vida sexual, pretende ficar anónimo, utilizando para estes efeitos o nome de guerra "Protótipo".
Sobre mim, apenas vos digo o que segue.
Jovem na casa dos vinte, com a irascibilidade própria de alguém quem alia à inteligência a vivacidade, mas que poderá, sem comedimento, ser considerado como um amigo de confiança, de altíssima lisura, sentido de humor caustico e inteligência aguçada, e que, por todas essas qualidades e mais outras - onde pontuam certamente o bom aspecto, o porte vigoroso de quem em tempos foi atleta, a postura, as slick moves, underground insights, o bom trato e elaboradas artes retóricas -, aspira fundadamente à construção de um ecletismo Da Vinchiano tipo século XXI (sim, porque, desde o Ricardo que já ninguém é cientista, escultor, pintor e engenheiro mecânico).
Este seja um dia em que a net, e blogosfera em especial, ficam mais ricas, pois o Protótipo veio para ficar e varrer. Como critério editorial, apenas direi que escreverei da perspectiva de um gajo que, apesar de não pretender representar ninguém, não deixa de pertencer a um tempo e lugar, que, para além de serem pouco retratados, quando o são, são-no normalmente mal e porcamente.
Bem hajam,
Protótipo
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